[weglot_switcher]

Presidenciais: Dos ovos ao PRD e Chega – diferenças e semelhanças entre 1986 e 2026

Os momentos históricos são muito diferentes, os protagonistas também, não são comparáveis, mas têm traços comuns. E diferenças.
Eleitores votam para a Câmara Municipal de Lisboa nas eleições autárquicas 2025, numa escola de Benfica, em Lisboa, 12 de outubro de 2025. Decorrem este domingo as eleições autárquicas em Portugal onde mais de 9,3 milhões de eleitores podem votar. Os eleitores vão escolher os órgãos dirigentes das 308 Câmaras Municipais, 308 Assembleias Municipais e 3.221 Assembleias de Freguesia, pelo que há três boletins de voto. ANTÓNIO COTRIM/LUSA
11 Janeiro 2026, 10h08

As presidenciais de 2026 culminam, como em 1986, um ciclo completo de eleições, com autárquicas e legislativas, e hoje, como há 40 anos, havia novos partidos a desafiar o bipartidarismo do PS e PSD.

Os momentos históricos são muito diferentes, os protagonistas também, não são comparáveis, mas têm traços comuns. E diferenças.

Eleições a duas voltas? Em 1986 sim, em 2026 talvez 

As presidenciais de 1986 foram as únicas com duas voltas na democracia portuguesa, desde o 25 de Abril de 1975.

A divisão era entre esquerda e direita num país que saiu de uma ditadura escassos 12 anos antes, no 25 de Abril de 1974, e depois uma revolução “vermelha”.

A primeira volta, em janeiro de 1986, foi uma espécie de primárias à esquerda, entre os candidatos Maria de Lurdes Pintasilgo (1930-2004), Salgado Zenha (1923-1993) e Mário Soares (1924-2017). Soares levou a melhor e foi à segunda volta em fevereiro e bateu, por pouco mais de 100 mil votos.

Três eleições num ano? Em 1986 também 

Os anos de 1986 e 2026 têm esse traço em comum: a realização de presidenciais que culminaram um ciclo completo de eleições – legislativas e autárquicas.

Em 05 de outubro 1985, realizaram-se legislativas, que deram a primeira vitória ao PSD de Cavaco Silva, em minoria, e ditaram uma queda do PS e o surgimento do partido “eanista”, o PRD.

Ora, 66 dias depois, os portugueses votaram nas autárquicas e logo no início do ano de 1986, em 26 de janeiro, foi a vez das presidenciais. Entre uma data e outra, passaram 42 dias.

Em 2025, o ciclo eleitoral foi mais espaçado: começou em 18 de maio com as legislativas, que reforçaram a votação na AD (PSD/CDS) e ditaram a subida do Chega a segunda força parlamentar. As autárquicas foram em 12 de outubro. E as presidenciais estão previstas para 18 de janeiro.

Em 1986 havia um terceiro partido a desafiar o bipartidarismo? Sim, era o PRD, e hoje é o Chega 

    Nem os partidos nem a situação política podem ser comparáveis, mas havia, há 40 anos, um novo partido – o Partido Renovador Democrático (PRD), inspirado na figura do então Presidente da República, António de Ramalho Eanes. Há 40 anos, o PRD era de centro-esquerda, hoje, o Chega é de extrema-direita.

    Nas eleições que deram a primeira vitória (sem maioria absoluta) ao PSD, o PRD conseguiu mais de um milhão de votos, 18%, e 45 deputados.

    Os renovadores beneficiaram da desilusão com os partidos, em especial do PS, depois de Mário Soares, fundador e líder histórico do partido, ter-se demitido de primeiro-ministro para preparar a corrida a Belém, afirmando-se como partido de centro-esquerda.

Ramalho Eanes, que esteve dez anos na Presidência da República e já não podia recandidatar-se em 1986, tinha ambições políticas: saiu de Belém para liderar o PRD.

    Passados 40 anos, o partido a desafiar o bipartidarismo (ou alternância entre PSD e PS em 50 anos de democracia) chama-se Chega, é de extrema-direita ou de direita radical, e cresceu, em dez anos, de um deputado, em 2015, a 60 deputados, passando a segunda força parlamentar, em 2025.

Havia candidatos militares? Em 1986 não, em 2026 há um 

Os portugueses elegeram em 1986 o primeiro Presidente da República civil em 60 anos – Mário Soares. E não havia candidatos militares nos boletins de voto, ao contrário do que aconteceu nas primeiras duas eleições, em 1976 e 1980.

Nas eleições de 1976, Ramalho Eanes, o tenente-coronel que conduziu as operações do 25 de Novembro de 1975, um ano depois do 25 de Abril, foi eleito com o apoio do PS e PSD. Outro militar de Abril, o estratego do golpe de 1974, Otelo Saraiva de Carvalho, conseguiu recolher 16% dos votos. E Pinheiro de Azevedo, almirante, também concorreu. O único civil foi Octávio Pato, que teve o apoio do PCP.

Em 1980, Ramalho Eanes venceu outro general, Soares Carneiro. No boletim de voto figuravam de novo Otelo e mais dois militares – Galvão de Melo e Pires Veloso. Aires Rodrigues, ex-PS, concorreu com o apoio de um partido de esquerda já extinto, o Partido Operário de Unidade Socialista (POUS).

Como era o parlamento? Em 1986 a maioria era de esquerda, em 2026 é de direita 

A Assembleia da República é, passados 40 anos, muito diferente. Se em 1986 havia uma maioria de esquerda, hoje uma maioria parlamentar é de direita. Hoje há partidos, como a Iniciativa Liberal e o Chega, este de direita radical, e o Bloco de Esquerda e Livre, à esquerda.

Há 40 anos, a esquerda (se incluirmos o PRD) tinha 140 deputados, e a direita (PSD e CDS) tinham 110. Havia 250 deputados.

Hoje, a maioria de direita é de 151 deputados, contando apenas com PSD, CDS e Chega, num parlamento que tem 230 eleitos.

O que é a tese dos ovos no mesmo cesto usada por Soares em 1986? Já alguém a usou este ano?

Sim, já, e foi António José Seguro, o candidato, tal como Mário Soares, apoiado pelo PS, a usar essa imagem.

Numa disputa com Diogo Freitas do Amaral, fundador do CDS e candidato com o apoio do seu partido e do PSD, recém-chegado ao poder, Mário Soares disse: “Os portugueses não gostam de pôr os ovos todos no mesmo saco.”

Passaram 40 anos e a imagem volta a ser usada. Num cenário diferente. Hoje, a direita (incluindo o Chega) tem uma larga maioria no parlamento.

Numa ação de pré-campanha, Seguro afirmou que o problema da tese dos ovos todos no mesmo cesto “não é o PSD, mas o outro partido extremista que está a colonizar com as suas ideais e propostas essa mesma direita”. Não o mencionou, mas referia-se ao Chega.

E candidatos “fantasma” no boletim? Sim, também houve

Se em 2026 a polémica foi com os três nomes que estão na corrida, mas cujas candidaturas foram invalidadas já depois de começarem a ser impressos os boletins de voto, há anos a questão era outra.

Ainda na primeira volta, o candidato apoiado pelo PCP, Ângelo Veloso, desistiu a favor de Salgado Zenha, o histórico socialista que concorreu com o apoio dos comunistas e do PRD.

No dia da votação, a Comissão Nacional de Eleições resolveu a questão riscando o nome do candidato no boletim que era exibido à porta das secções de voto. E as cruzes colocadas no quadrado correspondente a Ângelo Veloso foram considerados votos nulos.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.