Presidente de Cabo Verde afirma que “posições do Chega sem correspondência no sentimento dos portugueses”

Em reação a uma proposta do Livre para que o património de museus e arquivos que tenha sido trazido das antigas colónias portuguesas seja restituído aos países de origem, o deputado do Chega publicou na rede social Facebook: “Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem. Seria muito mais tranquilo para todos”.

O Presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, disse hoje acreditar que as posições defendidas pelo partido Chega não correspondem ao sentimento da grande maioria dos portugueses.

Jorge Carlos Fonseca, também presidente em exercício da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e que participou como convidado na reunião do Conselho de Estado, respondia desta forma quando questionado pelos jornalistas sobre a sugestão do deputado André Ventura de “devolver” a deputada Joacine Katar Moreira ao seu país de origem, a Guiné-Bissau, um dos Estados-membros da CPLP.

Nascida na Guiné-Bissau, a deputada eleita pelo Livre, Joacine Katar Moreira, tem nacionalidade portuguesa.

Em reação a uma proposta do Livre para que o património de museus e arquivos que tenha sido trazido das antigas colónias portuguesas seja restituído aos países de origem, o deputado do Chega publicou na rede social Facebook: “Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem. Seria muito mais tranquilo para todos”.

Embora ressalvando que, como Presidente cabo-verdiano, não deve fazer comentários sobre deputados de outros países, confrontado sobre se o episódio e a entrada daquele partido no parlamento português o preocupava – tendo em conta a significativa comunidade cabo-verdiana em Portugal – respondeu: “Naturalmente”.

“Mas, o que posso dizer é que não me parece que isso corresponda ao sentimento da grande maioria dos portugueses”, declarou.

Naquela que foi a sua primeira visita oficial a Portugal após o homicídio do estudante cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues, o chefe de Estado disse “ter registado a solidariedade” e “as reações das autoridades portuguesas”.

“Foi um acontecimento lamentável. Gerou uma onda generalizada de dor e indignação na sociedade e nas comunidades cabo-verdianas no exterior, o que é compreensível. Estou convencido que o mesmo sucederia noutras sociedades se a vítima não fosse cabo-verdiana. Essa reação e emotividade é compreensível”, frisou.

Para Jorge Carlos Fonseca, “o fundamental é que (…) a investigação prossiga e que no final a justiça seja feita perante um caso que foi verdadeiramente brutal”.

O estudante morreu num hospital do Porto, na sequência de alegadas agressões por um grupo, em 21 de dezembro, junto a um bar de Bragança, após uma desavença, tendo sido detidos cinco suspeitos.

O Presidente de Cabo Verde, país que detém a presidência rotativa da CPLP, falava no Palácio de Belém, em Lisboa, no final da reunião do Conselho de Estado, na qual participou a convite do homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa.

O Conselho de Estado analisou os “enormes desafios que se colocam à CPLP”, numa reunião que durou cerca de quatro horas.

Jorge Carlos Fonseca, o primeiro chefe de Estado a participar numa reunião desta natureza, fez uma “exposição introdutória sobre as perspetivas estratégicas” da comunidade lusófona, à qual se seguiram intervenções dos conselheiros.

“Fiz uma comunicação centrada na mobilidade no espaço comunitário, no que tem sido a presidência de Cabo Verde e o estado atual desse acordo [para a mobilidade], que espero que seja aprovado este ano, ainda que tenha sido um processo nada fácil, complexo, que teve que levar em conta as especificidades dos Estados”, considerou.

Jorge Carlos Fonseca disse ter demonstrado ao Conselho de Estado o seu “otimismo” em relação a essa aprovação.

Sobre a sua participação inédita numa reunião do Conselho de Estado em Portugal, o Presidente cabo-verdiano disse ter “aprendido muito com os comentários, as críticas e as sugestões”.

“Foi um fator de estímulo no sentido de aprimorar a comunidade para que venha a ser mais uma comunidade de povos, de pessoas, do que uma comunidade de estados”, disse.

Desde que assumiu funções, em março de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa inovou ao convidar personalidades estrangeiras e portuguesas para as reuniões deste órgão.

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