“Evolução dos valores no campo económico no horizonte 2050” é o título de um relatório do Senado francês publicado nas últimas semanas. O conteúdo surpreende, vindo de uma organização conhecida pela sua moderação. Não estamos a falar de um grupo de ativistas anticapitalistas.
A venerável instituição envia um sinal inequívoco: a competitividade do futuro dependerá muito menos da capacidade de crescer rapidamente e muito mais da capacidade de resistir, adaptar e operar num contexto de disrupções. A resiliência torna-se, assim, o novo denominador comum das estratégias de valor.
Os fatores que tradicionalmente alimentaram o crescimento – como a globalização, energia barata, estabilidade climática, ou demografia favorável – estão a transformar-se em fontes de volatilidade.
Fenómenos extremos multiplicam-se (o relatório lembra que as gerações nascidas depois de 2020 enfrentarão sete vezes mais eventos extremos do que as anteriores), as cadeias de abastecimento tornam-se mais frágeis e os custos associados à inação climática disparam. Esta combinação altera o cálculo económico. A ausência de resiliência deixa de ser um risco reputacional e passa a ser um risco financeiro direto. Este risco de ‘insolvência planetária’ não é abstrato, os sinistros climáticos já custam quatro vezes mais do que há trinta anos.
O relatório é claro ao afirmar que o ambiente deixa de ser uma externalidade para se converter num ativo económico crítico. O acesso à água, a gestão do solo, a exposição ao calor extremo ou a dependência de ecossistemas vulneráveis tornam-se variáveis que podem definir margens, determinar localizações industriais ou até condicionar a solvabilidade futura de setores inteiros. As empresas que não incorporarem estes fatores nos seus modelos de negócio terão dificuldades crescentes em atrair investimento, proteger operações e garantir continuidade.
O Senado francês sublinha, também, a inadequação das métricas tradicionais, em particular do PIB, para orientar decisões num mundo marcado por limites físicos. O valor económico desloca-se para ativos não contabilizados, como estabilidade climática, qualidade dos ecossistemas, saúde pública e confiança social. Esta evolução implica que as empresas terão de rever as suas métricas internas de desempenho, integrando risco climático, dependências ambientais, vulnerabilidades sociais e exposição a choques regulatórios.
Outro alerta relevante para o sector privado e para os orçamentos nacionais é a pressão sobre o financiamento. Num contexto de crescimento estruturalmente baixo e necessidades massivas de investimento, a transição energética exigirá vários pontos de PIB anuais durante décadas. Empresas e Estados terão, necessariamente, de priorizar projetos que reforcem resiliência, reduzam dependências críticas e criem valor, num quadro de recursos cada vez mais escassos.
A mensagem central para os líderes? Continuar a competir apenas por escala, eficiência, ou preço, deixará de ser suficiente.
É precisamente neste ponto que é fundamental atuar para apoiar organizações na construção de estratégias de resiliência, integrando clima, biodiversidade, risco regulatório, impacto social e adaptação operacional. Por isso é imprescindível trabalhar com empresas para identificar vulnerabilidades, redefinir prioridades, desenvolver métricas além do PIB financeiro e criar modelos capazes de gerar valor num ambiente de escassez e mudança acelerada.
A vantagem competitiva pertence a quem se preparar, desde já, para operar dentro dos limites do planeta, a nossa primeira e inamovível infraestrutura.



