João Varandas Fernandes, membro do Conselho Científico da UAL: “Queremos criar um centro de investigação em Enfermagem com impacto”

A Cooperativa de Ensino Universitário, que integra a UAL, está a apostar fortíssimo na área da Saúde. O primeiro passo da estratégia foi a aquisição, em novembro, da Escola Superior de Enfermagem S. Francisco das Misericórdias. O segundo consiste na criação do Centro de Investigação e Desenvolvimento. João Varandas Fernandes, Coordenador da área das Ciências da Saúde, revela ao JEUniversidades a estratégia e o novo posicionamento do Grupo CEU.

Médico e Adjunto da Direção Clínica do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, João Varandas Fernandes é membro do Conselho Científico da UAL e Coordenador da área das Ciências da Saúde do Grupo CEU – Cooperativa de Ensino Universitário, que integra a Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), onde leciona. É autor de várias publicações científicas e coautor de vários livros publicados sobre a área da Saúde. Nesta entrevista explica a aposta da mais antiga universidade privada do país na área das Ciências da Saúde, quer ao nível do ensino quer da investigação, no âmbito da qual está previsto o lançamento em 2022 do Mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia. “Queremos posicionar a Escola na especialização de excelência dos profissionais de Saúde”, afirma o professor, defensor de uma forte política de recursos humanos e um renovado modelo de gestão hospitalar e do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

 

No geral, as universidades e os politécnicos portugueses enfrentaram a Covid-19 com a produção e distribuição de EPI, ventiladores, álcool gel, viseiras e até desenvolveram um ventilador. Como é que a comunidade educativa da Universidade Autónoma de Lisboa (CEU-UAL) respondeu aos desafios colocados pelo novo coronavírus?
A sociedade em geral mobilizou-se para responder a um desafio verdadeiramente coletivo e universal e as universidades e os politécnicos não foram exceção. Creio, aliás, que um dos aspetos positivos desta experiência foi o reforço da perceção pública sobre o relevante papel das comunidades do conhecimento, entre as quais as universidades, pela partilha de informação essencial para a orientação e eficácia das políticas públicas. Precisamente para responder aos novos desafios e preocupações da comunidade, a Cooperativa de Ensino Universitário (CEU), que integra a Universidade Autónoma, decidiu apostar na área das Ciências da Saúde. E essa aposta é feita a dois níveis: ensino e investigação.

 

Falemos desse investimento. Quando começou?
Em novembro de 2020, a CEU deu um passo muito importante nesta aposta, com a aquisição da Escola Superior de Enfermagem S. Francisco das Misericórdias (ESESFM). Isto veio permitir alargar a oferta formativa em Saúde, que, até então, estava mais centrada na Administração de Unidades de Saúde, área na qual temos uma licenciatura. A ESESFM é uma referência no ensino da enfermagem a nível nacional. É interessante que a sua notoriedade está muito associada à missão das Misericórdias, ao seu papel colaborativo com a sociedade e as instituições em geral. Uma missão partilhada pela CEU. Portanto, este projeto passará certamente pela cooperação e criação de parcerias na área da Saúde.

 

Quais são os projetos da CEU-UAL para a Escola de Enfermagem?
Estamos muito conscientes de que a aprendizagem ao longo da vida é essencial. Por isso, queremos posicionar a Escola na especialização de excelência dos profissionais de Saúde. Por outro lado, temos também um grande projeto a nascer: a criação do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Ciências da Saúde (CIDCS). Trata-se de um espaço privilegiado para a realização de investigação aplicada aos diferentes domínios de intervenção em saúde. Se há algo que aprendemos com a pandemia é que a investigação tem de ter impacto na sociedade, procurando dar resposta aos desafios com que nos deparamos.

 

Quais são as especializações que a escola oferece?
Com inscrições abertas, temos a Pós-Graduação em Prevenção e Controlo de Infeção. Esta especialização é particularmente relevante hoje em dia, ao capacitar os profissionais responsáveis para a implementação de boas práticas nas instituições de saúde. Em breve, serão lançadas duas pós-licenciaturas em Enfermagem de Reabilitação e em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Teremos pós-graduações em Instrumentação Cirúrgica; Enfermagem no Desporto; e a pós-graduação “Saúde 4.0”, para responder à revolução da tecnologia no sector de saúde. Novidade será o lançamento do Mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia previsto para 2022.

 

O objetivo passa por elevar as Ciências da Saúde ao nível do Direito que é, neste momento, a área de maior nome da Universidade?
O principal objetivo é diversificar a oferta formativa, incluindo mais opções de formação e especialização numa área estratégica para o Grupo CEU: a Saúde. O Direito, a Comunicação, e os cursos na área da Gestão representam 60% dos inscritos no 1º ciclo na Universidade Autónoma e, neste sentido, a procura também será determinante para a definição de objetivos a longo prazo. A UAL é a mais antiga Universidade privada do país. A nossa formação abrange as mais diversas áreas do conhecimento: Ciências da Comunicação; Ciências e Tecnologias; Ciências Económicas e Empresariais; Ciências do Desporto da Saúde e da Administração Pública; História, Artes e Humanidades; Arquitetura; Psicologia; Relações Internacionais; e o Direito, que é, efetivamente, uma pedra angular do projeto educativo da UAL.

 

A área vai ter departamento próprio?
A criação de um departamento poderá fazer sentido a médio e longo prazo enquanto chapéu de várias iniciativas que temos previstas.

 

A ciência e o estudo da prática clínica ganharam protagonismos nos últimos 12 meses. O que pode a sociedade portuguesa esperar da CEU-UAL ao nível da produção de conhecimento?
O Grupo CEU, com a aquisição da Escola de Enfermagem e a criação do Centro de Investigação, passa a impulsionar mais uma nova área de estudo. Queremos criar um grande centro de investigação em Enfermagem, com impacto na melhoria dos cuidados às pessoas, famílias e comunidades. Note-se que a UAL tem reputados Centros de Investigação em diversas áreas, nas Ciências Económicas e Empresariais; Ciências Históricas e História Empresarial; Ciências da Comunicação; Ciência Jurídicas; Arquitetura; Psicologia; o TechLab – nas Tecnologias; e o Observare – Observatório de Relações Exteriores, que tem desenvolvido um grande número de projetos de investigação nessa área científica. E agora pretendemos transpor este know-how para a Saúde, começando pela Enfermagem.

 

Para quando o primeiro estudo?
O primeiro estudo está em andamento. Estamos a analisar o comportamento das instituições face à atual crise de saúde pública e a importância dos mecanismos de decisão no contexto pandémico. O nosso objetivo é obter respostas que contribuam, no imediato, para melhorar a gestão dos serviços de saúde.

 

Quando se prevê que possa ser apresentado publicamente?
Contamos apresentar os resultados ainda este semestre. O estudo envolveu os principais centros hospitalares públicos e privados da região de Lisboa e poderá ser alargado a outras regiões do país, numa segunda fase.

 

Como avalia a forma como os hospitais geriram as orientações e os comportamentos na prática no seu hospital?
Repare, estamos a sair da fase de reação para uma fase de maior ponderação e análise. E é por isso que este estudo se revela particularmente pertinente. Mais do que uma opinião, vai aferir o que se passou no terreno e quais as melhores e piores experiências. Os hospitais reagiram da melhor forma possível, em geral. Estávamos perante uma nova realidade, adversa, muito exigente para os profissionais de saúde, quer do ponto de vista do exercício clínico quer pelo desgaste físico e emocional. O mais interessante é analisar as dinâmicas geradas entre as orientações e recomendações centrais e a resposta local, em cada unidade hospitalar. Foi na governação clínica que se levantaram muitas questões que não estavam previstas e que foi necessário resolver. Acredito que esta autonomia “forçada”, bem como o enorme esforço de cooperação de cada unidade de saúde, teve um impacto muito positivo na forma como se conseguiu prestar cuidados de saúde de qualidade durante a pandemia.

 

Quais são os próximos passos do projeto da UAL no campo das Ciências da Saúde?
Os próximos passos serão de consolidação das várias valências atuais. Ou seja, aprofundar as componentes inerentes ao ensino superior, com impacto na prestação de serviços à comunidade, e reforçar a investigação pura e aplicada às Ciências da Saúde. Um projeto de cooperação com as Faculdades de Medicina poderá vir a ser um caminho.

 

Está previsto o lançamento de algum curso?
Estamos focados na especialização de profissionais e temos muitas novidades em termos de pós-licenciaturas, pós-graduações e mestrados. Algumas já aqui mencionadas, outras, em desenvolvimento, serão anunciadas nos meios próprios da UAL, da Autónoma Academy e da Escola de Enfermagem. Teremos novas propostas formativas de diferentes níveis de aprendizagem, de acordo com as necessidades do ensino superior e ajustadas às exigências do país.

 

Em que medida a especialização é uma mais-valia na Enfermagem?
A especialização em Saúde é sempre uma mais-valia pela atualização de conhecimentos e domínio técnico, sendo fundamental que o exercício da profissão seja sustentado na evidência. Mas é também muito importante para as competências da “arte” de cuidar, o que é particularmente relevante no caso da enfermagem. Num serviço de saúde que se pretende de proximidade, os enfermeiros assumem um papel essencial no bem-estar físico e emocional dos doentes e das suas famílias. Por outro lado, o investimento na especialização em áreas como o controlo e a prevenção pode exigir menos recursos financeiros ao SNS, face aos elevados custos associados ao tratamento e cura em saúde. Estes profissionais são responsáveis pela implementação de políticas de qualidade com impacto comprovado na saúde e segurança do doente.

 

Quantos alunos de Enfermagem estudam na ESESFM?
Temos cerca de 300 alunos em diferentes segmentos das Ciências da Saúde.

 

Um número significativo de enfermeiros continua a emigrar todos os anos. Como se consegue reter estes profissionais em que Portugal investiu e que acabam por criar riqueza em países como o Reino Unido ou França?
Valorizando e reconhecendo o seu trabalho. E isso passa por sermos capazes de lhes oferecer condições de trabalho mais dignas e remunerações adequadas. Isto é, encontrar aliciantes para as legítimas aspirações de carreira destes profissionais, nas quais a formação e a especialização também devem ser consideradas.

 

Qual a sua opinião sobre as medidas do Plano de Recuperação e Resiliência na área da Saúde?
Considero que é necessário (re)pensar a área da Saúde e que, para isso, não basta o investimento financeiro. Não significa que não seja uma componente fundamental para o progresso e melhoria dos cuidados de saúde. Mas o que defendo é que tem de existir uma visão estratégica que envolva outros aspetos, entre eles uma forte política de recursos humanos e um renovado modelo de gestão hospitalar e do funcionamento do SNS. Estes são aspetos essenciais para uma efetiva produtividade do sistema. Se não forem considerados, podemos estar a investir em infraestruturas, equipamentos e digitalização da saúde, sem qualquer otimização, desperdiçando-se uma excelente oportunidade de mudança. Estamos no momento certo para avançar com a tão aguardada reforma do SNS.

 

Que apreciação faz do ensino da Medicina em Portugal?
A formação académica e profissional nas escolas Médicas em Portugal está ao nível das melhores da Europa. E vemos isso com a competência aos nossos profissionais que trabalham fora do país e a quem tem sido feito esse justo reconhecimento. No entanto, a Medicina não pode ser alheia à própria evolução da sociedade. Pelo contrário, tem de a saber acompanhar. E isso passa pela capacidade de responder àquelas que são hoje as nossas reais necessidades em saúde e prestação de cuidados, mas também de nos adaptarmos às transformações marcadas pelas novas tecnologias.

 

É a favor ou contra o alargamento dos numerus clausus?
Esta é uma questão que divide a comunidade académica. Se é certo que gostaríamos de ver “massificado” o acesso ao ensino superior e que não faz sentido alunos com médias elevadas verem goradas as suas expectativas de escolha, também é certo que os numerus clausus têm de refletir a capacidade de cada instituição em termos de recursos técnicos, humanos e de instalações para que se continue a garantir um ensino de qualidade em cada área de estudo. O Estado tem aqui que intervir de forma a assegurar condições de competitividade, permitindo o acesso a mais estudantes, sem que fiquem limitados pelo estrangulamento financeiro sentido por muitas famílias.

 

Portugal deveria ter mais mestrados integrados em Medicina? A UAL teria interesse em ministrar um?
É uma área que apresenta alguma complexidade, mas, no futuro, nada impede que a CEU assuma esse desígnio e que venha a ser uma realidade. Assim sejam criadas as condições adequadas às instituições de ensino superior.

 

Se fosse ministro do Ensino Superior durante 24 horas, que decisões tomaria?
Embora esteja bastante habituado ao sentido de urgência, enquanto Ministro tentaria evitar a reação, optando, sempre que possível, por auscultar, analisar, envolvendo toda a comunidade científica. Uma das decisões que tomaria seria a integração do ensino politécnico e universitário, de que há exemplos bem-sucedidos. Eliminar a via binária seria uma forma de maximizar recursos e meios, reduzindo os custos associados ao ensino superior e garantindo uma oferta de ensino diversificada e de excelência.

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