Ricardo Baptista Leite: “Tornei-me militante do PSD pela mão do professor Marcelo Rebelo de Sousa”

Deputado social-democrata recebeu em casa carta com ficha de militante assinada pelo então líder do partido, a quem reconhece uma “liderança pela proximidade e pelo exemplo que é algo que devemos esperar por parte de um Presidente da República”. Sobre o regresso do PSD ao poder, diz que terá de ser a consequência do trabalho feito pelo partido numa conjuntura difícil.

Flickr/PSD

O vice-presidente do grupo parlamentar social-democrata faz uma avaliação completamente positiva do primeiro mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, a quem o PSD declarou apoio à recandidatura na noite de sexta-feira. Quanto ao crescimento do Chega nas sondagens, sem referir o nome do partido, Ricardo Baptista Leite diz que dar resposta às verdadeiras necessidades dos eleitores é o “caminho mais eficaz para combatermos a passagem de eleitores para soluções mais extremadas”.

Acredita que o PSD voltará a ser Governo em 2023?

O nosso principal foco nesta altura, com toda a franqueza, é ultrapassar esta difícil crise, não só de saúde mas também económica e social, que estamos a atravessar. As consequências políticas que daí advierem são muito mais importantes do que um partido ou outro estar no Governo. O PSD está focado em demonstrar que é um partido responsável, com o qual os portugueses podem contar e que estará sempre do lado das soluções que respondam às necessidades efetivas das pessoas. Quando os portugueses forem chamados a votar, a minha esperança é que se formos eficazes na passagem desta mensagem, se as pessoas sentirem que podem confiar no PSD, possa merecer esse voto de confiança. Mas isso terá de ser a consequência do nosso trabalho e não apenas algo que herdamos pelo mau trabalho de quem esteja a governar num determinado momento.

O rescaldo da pandemia e da crise económica e social que lhe está associada poderá ser, se o cenário for o pior, um lastro para aumentar o peso eleitoral do populismo e do extremismo?

Muitas vezes os movimentos populistas nascem do facto de as pessoas sentirem que quem os governa não dá resposta às suas necessidades mais básicas. Muitas vezes isso traduz-se em não conseguir gerar emprego, em não conseguir uma distribuição justa do rendimento que resulta na marginalização das pessoas mais frágeis, e neste contexto poderá resultar de as pessoas acharem que quem os governa não lhes garante a segurança. A democracia está à prova e se há algo que temos de aprender de outros países onde tem havido um crescimento muito grande dos ditos movimentos populistas ou extremistas é que os governos têm de perceber o que é os eleitores verdadeiramente esperam deles. Neste caso, creio que querem que o Governo seja capaz de conter a pandemia, de garantir que os doentes não-Covid tenham a resposta de que precisam, de garantir a proteção dos mais vulneráveis e que a economia se consiga reinventar neste tempo tão difícil. Precisamos de ajudar as empresas, que são os verdadeiros geradores de riqueza e de emprego, a reinventarem-se num novo mundo para o qual os livros de Economia não foram escritos. A nossa economia está em cuidados intensivos, usando linguagem médica, e temos de garantir que podemos tirar o ventilador e que possa voltar a funcionar de forma livre. Portugal não está nesse ponto, pelo que temos de ser muito inteligentes na gestão dos fundos europeus que aí vêm, que são uma oportunidade única. Se falharmos em todas estas medidas será natural que sintam que o atual Governo não resulta, e podem sentir-se tentadas a ir atrás de discursos que prometem um sonho mesmo que não seja realista. Temos de falar com realismo e com humanidade, percebendo que a política só faz sentido se for feita com as pessoas, para as pessoas e em que as pessoas se sintam parte desse processo. Partidos como o PSD, que é o maior da oposição, têm a responsabilidade de serem cada vez mais próximos das pessoas. Creio sinceramente que outros países têm demonstrado que é esse o caminho mais eficaz para combatermos a passagem de eleitores para soluções mais extremadas, que não dão as respostas necessárias e são apenas projetos de poder.

Preocupa-o assistir à ascensão do Chega nas sondagens?

Estamos a assistir a algo que já vimos noutros países. Creio que o partido que refere está a aproveitar o momento muito difícil que o CDS-PP está a viver. E há uma faixa da população que não se sente identificada nos partidos mainstream e encontram ali um escape. Se formos eficazes, e a nossa mensagem social-democrata conseguir convencer as pessoas de que somos o caminho, estou convencido que não deixará de ser um partido residual. Mas se falharmos no cumprimento da nossa missão partidos como esse poderão crescer. Veremos como evolui o panorama político português. Sendo um social-democrata convicto, gostaria de continuar a ver os moderados – aqueles que não têm medo de usar o que está certo, esteja à direita ou à esquerda, para resolver os problemas do país – a vencer.

Nas próximas presidenciais encontra-se entre os sociais-democratas disponíveis para contribuir para a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa?

Tornei-me militante do PSD pela mão do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda era estudante universitário, na Faculdade de Medicina, e disse em casa que, depois de ler os manifestos partidários, me identificava com a social-democracia de Sá Carneiro. Duas semanas depois a minha mãe estava numa fila para o notário em Oeiras, e atrás estava o professor Marcelo Rebelo de Sousa, a quem confidenciou o que lhe tinha dito. Ele ficou com a minha morada e duas semanas depois enviou uma carta com a ficha de militante assinada por ele. Creio que esta liderança pela proximidade e pelo exemplo é algo que devemos esperar por parte de um Presidente da República e creio que o professor Marcelo Rebelo de Sousa tem sido capaz de demonstrar. Tem o meu total apoio.

Faz uma avaliação completamente positiva do seu mandato?

Em longos anos de convivência partidária, e agora como Presidente da República, terá havido momentos em que concordei mais e menos com ele, mas fazendo um balanço creio que o Presidente da República tem de estar acima dos partidos e de ser uma voz sobretudo pelos cidadãos e pela defesa da Constituição. Ele tem estado à altura e sinto-me identificado com a sua liderança. Espero sinceramente que, caso decida avançar, possa ser eleito com uma votação expressiva.

Compreende os seus colegas de bancada que votaram contra o fim dos debates quinzenais com o primeiro-ministro e há poucos dias optaram por votar nulo ou em branco na eleição da liderança do grupo parlamentar do PSD?

Em todas as eleições do grupo parlamentar em que tenho participado ao longo dos anos – fui eleito deputado pela primeira vez em 2011 e já vi muitas direções do grupo parlamentar – há sempre votos em branco e votos nulos. Faz parte do processo democrático e é bom que as pessoas percebam que se trata de uma estrutura autónoma, embora naturalmente tenha de haver alinhamento para não perder todo o seu sentido estratégico. Essa diversidade de pensamento, e haver quem desafie a liderança do grupo parlamentar, enriquece o processo democrático interno do partido, e espera-se que essas vozes possam continuar, nos palcos próprios, nas reuniões do grupo parlamentar e no Conselho Nacional, a manifestar as suas opiniões, pois o PSD sempre cresceu a partir da sua própria diversidade. Orgulho-me muito dessa liberdade de expressão, que nos distingue de partidos mais extremados em que votam todos de forma igual, coartando a sua liberdade de pensamento individual.

Não vê o risco de a bancada do PSD vir a aumentar o número de deputados não inscritos na Assembleia da República?

Nunca ouvi qualquer sinal nesse sentido e pessoalmente ficaria muito desiludido se algum colega o fizesse. Se porventura discordasse da direção do partido que garantiu que eu pudesse ser candidato a deputado, e depois eleito, tendo uma discordância tão profunda com o partido que leva a que alguém se torne deputado independente, creio que teria de renunciar ao mandato. Ter sido eleito com um mandato dos portugueses, com um programa eleitoral de um determinado partido, e depois entender que esse mandato é individual é não estar a ser fiel a quem elegeu. Ser deputado não inscrito é uma figura regimental que é possível, mas creio que não cumpre os requisitos daquilo que é um deputado eleito nas listas de um partido.

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