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‘Sell-off’ do Bitcoin e da IA arrastam ouro

A separação do trigo do joio na IA teve início há vários meses e começa a ameaçar o atual ‘bull market’, que não pode ser sustentado apenas pela rotação setorial.
Homem & Máquina
6 Fevereiro 2026, 09h10

Após consecutivos máximos históricos, ditados sobretudo pelo setor tecnológico, esta semana ficou marcada por perdas relevantes nos índices acionistas, evidenciando crescentes fragilidades na inteligência artificial, que poderão indiciar uma possível inversão de tendência. A separação do trigo do joio na IA teve início há vários meses e começa a ameaçar o atual bull market, que não pode ser sustentado apenas pela rotação setorial. Embora, ainda esta semana, os ativos mais defensivos e value tenham valorizado, refletindo-se nos máximos do Dow Jones, esse movimento será incapaz de suportar os mercados caso a tecnologia continue a desvalorizar, uma vez que foi precisamente o setor tecnológico, em particular a IA, que impulsionou os mercados.

O setor da IA evidencia cada vez mais divergências. A Alphabet tem beneficiado das perspetivas de um forte dinamismo do ecossistema Gemini e da capacidade do grupo para ganhar quota de mercado, reforçando a confiança dos investidores quanto ao potencial de crescimento das receitas nos próximos anos. Em sentido contrário, a Microsoft evidencia cada vez mais as preocupações do mercado com o aumento do investimento em data centers e infraestruturas de IA, pressionando as expectativas de monetização, pelo menos no curto prazo. Assim, há também uma rotação de carteiras no setor tecnológico e maior exigência quanto à materialização de lucros, penalizando empresas com maior intensidade de investimento. Por isso, a Alphabet é a big tech que apresenta melhor desempenho no último ano, com uma valorização de mais de 100% e novos máximos históricos no início da semana, valendo quase 4 biliões de dólares, perto da Nvidia e da Apple, enquanto a Microsoft tem perdido terreno.

Desde o final do verão, o mercado tem evidenciado uma divergência crescente dentro do setor da IA, penalizando empresas intensivas em capital e com fraca geração de cash-flow presente, enquanto premeia modelos capazes de monetizar a IA de forma recorrente. Empresas como Oracle, AI pure plays e software “AI-wrapped”, dependentes de elevado investimento em infraestruturas e com monetização adiada, têm corrigido acentuadamente, apesar de os índices acionistas permanecerem próximos de máximos. A Bitcoin tem apresentado um comportamento semelhante, não por razões tecnológicas, mas financeiras, ou seja, tal como essas empresas, não gera cash-flow, depende de entradas contínuas de capital e está avaliada com base em expectativas futuras. Num contexto em que os investidores passaram a privilegiar rendimentos presentes e menor intensidade de capital, estes ativos têm sido penalizados, enquanto hyperscalers como a Alphabet, capazes de monetizar a IA, mostram maior resiliência.

Embora o ouro também tenha corrigido, valoriza quase 15% desde o início do ano. Com um historial de seis mil anos, atravessou impérios e acompanha a civilização desde o seu início. Trata-se do elemento químico 79, um ativo escasso que não pode ser “impresso”. Já a BTC perde quase 25% em 2026, apesar de, tal como o ouro, não gerar qualquer rendimento — apenas ganhos de capital —, tem apenas 15 anos de existência e, sendo uma tecnologia, é suscetível de se tornar obsoleta. A forte valorização recente do ouro atraiu investidores de retalho, muitos dos quais mantêm simultaneamente posições mais arrojadas, por exemplo em BTC, criptomoedas e empresas ligadas à inteligência artificial, frequentemente com recurso a alavancagem. Sobretudo o meltdown da BTC e as sucessivas margins calls têm forçado à venda transversal de todas as posições em carteira, incluindo ouro, penalizando também o preço do metal amarelo.

Ao nível macro, a semana fica marcada por sinais de maior fragilidade do mercado de trabalho nos EUA. Os pedidos de subsídio de desemprego subiram para 231 mil, o valor mais elevado em dois meses e as ofertas de emprego caíram para o nível mais baixo desde setembro de 2020.


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