Sindika Dokolo, um homem entre Kinshasa e o Porto

Nasceu no Congo, viveu a juventude na Europa e casou em Angola. Pela mão de Isabel dos Santos, a sua mulher, acabaria por reconhecer em Portugal, mais propriamente no Porto, o lugar certo para fazer descansar de tantas viagens a sua enorme coleção de arte.

Sindika Dokolo, empresário e marido de Isabel dos Santos, morreu esta quinta-feira no Dubai vítima de afogamento, segundo relatam ainda com pouca informação disponível os jornais congoleses, país onde nasceu há 48 anos (em Kinshasa, em março de 1972). O seu casamento com Isabel dos Santos em 2002 – que, diz-se, custos qualquer coisa próxima dos 900 mil euros e teve cerca de 10 mil convidados, entre eles o antigo primeiro-ministro Durão Barroso, entre muitos outros portugueses – fê-lo aproximar-se de Portugal.

E mais propriamente do Porto, para onde quis deslocar a sede europeia da sua fundação. A ligação ao Porto data de 2015. Em março desse ano, Sindika Dokolo foi galardoada com a Medalha de Mérito da cidade do Porto, no âmbito da exposição de arte contemporânea ‘You Love Me, You Love Me Not’.

A homenagem serviu de reconhecimento da cidade ao contributo de Sindika Dokolo, que permitiu à cidade do Porto desenvolver um dos mais relevantes projetos da arte contemporânea da atualidade. E aconteceu no auge da agitação que rodeou a entrada e mais tarde a saída da empresária angolana do elenco acionista do BPI.

Rodeada por jornalistas desde a receção nos salões da Câmara Municipal até às salas da Biblioteca Municipal Almeida Garrett – onde estava a exposição – Isabel dos Santos tentou ‘esconder-se’ atrás de Sindika Dokolo para não lhe roubar o protagonismo, que nessa noite devia ser dele. O presidente da câmara, Rui Moreira, anfitrião solícito, também tentou dirigir o interesse geral para a exposição – que percorreu com demora ainda o casal não tinha chegado ao recinto. Mas o BPI era, por esses dias, demasiado apetecível em termos noticiosos e Isabel dos Santos acabou por aceder a dirigir algumas palavras ao numeroso batalhão de jornalistas. Só para dizer que não falaria do BPI!

Mais tarde, em janeiro de 2016, a Fundação Sindika Dokolo acabaria por decidir escolher o Porto para acolher a sua sede europeia, que haveria de ficar situada no edifício Casa Manoel de Oliveira.

A arte foi sempre o veículo de satisfação pessoal de Sindika Dokolo – que não escamoteava a sua condição de herdeiro e continuador do legado do pai, o primeiro banqueiro de raiz alguma vez surgido no continente africano.

Filho de pai congolês e mãe dinamarquesa, passou a maior parte da sua infância na Europa (Bélgica e França).

Com a morte do pai em 2001, viria a assumir o império da família, que se estendia pela banca, imobiliário, seguros, pecuária e extração mineira, entre outras minudências, ao mesmo tempo que criava o seu próprio império com a ainda namorada Isabel dos Santos. Mas os seus interesses mantiveram-se sempre equidistantes entre os negócios – que sabia provocar-lhe frequentes dores de cabeça, nomeadamente com as acusações ou suspeitas de fraude tanto no Congo como em Angola) – e a arte, que considerava ser uma forma de identidade e de identificação do povo africano.

Dizem as crónicas que começou a sua coleção aos 15 anos, instigado pelo pai e numa altura em que conhecia a África mais dos postais que propriamente por lhe sentir o pulsar. Desde então reuniu mais de três mil obras, entre pinturas, gravuras, fotografias, vídeos e instalações, numa coleção que os peritos avaliavam em cerca de 50 milhões de euros. Foi através dela que encontrou o reconhecimento em várias capitais, principalmente aquelas que, como Madrid, Veneza ou São Paulo, têm nas artes uma das suas opções diferenciadoras.

Membro do conselho de administração de várias empresas portuguesas – por causa da ligação de Isabel dos Santos a alguns homens de negócios portugueses, como era o caso dos Amorim – o seu desaparecimento foi a todos os títulos inesperado. Na sua conta no Twitter, Isabel dos Santos publicou uma foto do casal sem qualquer legenda.

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