Sócrates: “Julgamento de Lula foi uma farsa. Cumplicidade de Sérgio Moro com o Ministério Público é simplesmente vergonhosa”

“A pergunta agora é o que vai fazer o Brasil? Para falar com franqueza, não sei. Mas sei que não há nada de mais intuitivamente ofensivo da decência humana do que condenar alguém sem provas e prendê-lo no seguimento de um julgamento injusto e parcial”, segundo o antigo-primeiro-ministro que volta a criticar Sérgio Moro.

José Sócrates veio a público criticar o juiz do Lava Jato, depois da revelação de várias mensagens entre Sérgio Moro e os procuradores brasileiros que investigavam este processo.

Na polémica já conhecida como “Vaza-Jato” revelada pelo site “The Intercept”, foram reveladas várias mensagens trocadas entre Sério Moro e procuradores do Ministério Público brasileiro responsáveis pela Operação Lava-Jato. Nas mensagens, o juiz federal dava sugestões aos procuradores sobre como atuarem no processo e discutia detalhes do caso.

Em artigo de opinião publicado hoje no Jornal Económico, o antigo-primeiro-ministro português deixa várias críticas à conduta do atual ministro da Justiça do Governo de Jair Bolsonaro durante a investigação à operação “Lava-Jato” que terminou com a condenação de Lula da Silva a uma pena de prisão de 12 anos.

“As conversas agora reveladas mostram uma cumplicidade do juiz com o Ministério Público simplesmente vergonhosa. Não, não foi apenas uma troca de impressões circunstancial. Tratou-se, isso sim, de uma descarada tramóia entre o juiz e a parte acusatória com o objetivo expresso de prejudicar o acusado. Lula da Silva não teve direito ao chamado devido processo legal porque se viu privado da primeira condição de equidade num julgamento justo e leal– um juiz sem parte, um juiz isento, um juiz imparcial”, escreve o antigo-primeiro-ministro em artigo de opinião publicado no Jornal Económico esta quarta-feira.

Em plena polémica do “Vaza-Jato”, Sérgio Moro foi condecorado por Jair Bolsonaro com a Ordem do Mérito Naval. O ministro da Justiça vai comparecer no Senado na próxima semana para responder a questões relacionadas com este tema. O presidente brasileiro ainda não se pronunciou publicamente sobre este caso, mas esteve reunido com Sérgio Moro na terça-feira.

José Sócrates aponta assim que a revelação destas conversas revela falta de imparcialidade do juiz federal brasileiro, concluindo que o “julgamento de Lula foi uma farsa”.

“A denúncia tem firmeza e gravidade – a prisão foi usada como arma política. Agora o mundo inteiro sabe (vantagem do site que escreve em inglês) que o julgamento de Lula foi uma farsa. Agora o mundo sabe que a sua prisão foi motivada politicamente. Agora o mundo sabe que não quiseram apenas prendê-lo  fisicamente, mas prendê-lo também na opinião pública. Agora o mundo sabe que o que sempre desejaram – e conseguiram – foi impedir a sua candidatura. Agora o Brasil sabe da injustiça. Impossível passar ao lado”, segundo o ex-primeiro-ministro.

Esta não é a primeira vez que José Sócrates critica Sérgio Moro. Quando o ministro da Justiça brasileiro esteve em Portugal em abril, Sócrates acusou-o de ser um “ativista político disfarçado de juiz”. Em resposta, o juiz brasileiro declarou que não debate “com criminosos pela televisão”.

Recorde-se que o ex-primeiro-ministro foi acusado por 31 crimes no âmbito da Operação Marquês: três de corrupção passiva para titular de cargo político, 16 crimes de branqueamento de capitais, 9 de falsificação de documento e três de fraude fiscal qualificada, segundo a Visão.

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