Repetimos. Esta é uma bienal teimosamente humana. Por mais desvios que proponha, por mais resistência que a habite, o ser humano está no centro, no âmago da BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas. Aqui, ser invisível não é uma condição. Pelo contrário. Aqui, as pessoas invisíveis veem-se. Porque, “de forma direta ou indireta, toda a criação artística contemporânea lê necessariamente o seu tempo”, diz-nos John Romão, curador da bienal. Sem pruridos, acrescentamos nós, a sub-representação e a invisibilidade social não se manifestam apenas pela condição financeira. A cor, o género e, estranhamente, ainda hoje, a profissão pode ditar essa ‘condição’. É, pois, preciso ler o nosso tempo e tornar visível.
Aqui entronca a curadoria que Romão tem desenvolvido na BoCA ao longo dos últimos dez anos. “Priorizando artistas e criações que refletem questões sociais, antropológicas, identitárias ou políticas através de um ativismo poético. Estas dimensões evidenciam-se através de artistas de quem nos temos rodeado, cujas vozes e temáticas abordadas são sub-representadas.”
Na BoCA, os muros são para abater. Como? “Propomos novas travessias: um ‘Camino Irreal’”. diz o curador sobre a 5ª edição da bienal, que se partilha entre Lisboa e Madrid, de 10 de setembro a 26 de outubro. Uma dessas ‘travessias’ é a ópera “Adilson”, onde Dino D’Santiago “faz da invisibilidade, de um tema muito específico de um familiar seu e que é representativo de milhares de pessoas que vivem à margem da visibilidade e da liberdade, um ato de pulsão criativa e um gesto de resistência poética.” Evai mais longe. “O palco não é apenas um espaço de celebração, pode ser um tribunal de justiça poética.” (ver texto ao lado)
Para John Romão esta é a última Bienal como programador. Em breve assumirá a tempo inteiro a direção artística de Évora 2027, Capital Europeia da Cultura. Parte para uma nova geografia, ele que tem explorado e desenvolvido, a partir de Lisboa, diálogos geográficos com outras cidades portuguesas e estrangeiras, através da circulação das criações que a Bienal encomenda e de extensões da sua programação. “A bienal tem tido Lisboa como epicentro, incluindo parcerias com mais de 20 instituições culturais, e implementa sempre uma extensão a uma segunda cidade, até agora portuguesa: Porto, Braga, Almada, Faro.”
A ambição cresceu e “a relação com a capital estrangeira mais próxima, Madrid, abriu um conjunto de possibilidades que reforçam a nossa ação: estabelecemos o maior número de parcerias institucionais culturais entre Portugal e Espanha, que até hoje eram muito escassas.”
A ‘movida’ Lisboa-Madrid
Se este é um aspeto relevante, a criação artística não lhe fica atrás, como realça Romão. “Fomentámos a criação e a colaboração com artistas de ambos os países, através de novas criações em estreia mundial e nacional que serão apresentadas em Lisboa e Madrid, promovemos colaborações interdisciplinares ibéricas, envolvemos comunidades artísticas e a sociedade civil na construção de um imaginário coletivo ibérico.”
A questão das fronteiras não podia ser apagada do ADNda bienal. “A extensão a Madrid é uma afirmação da importância de continuar a questionar fronteiras, tanto físicas quanto simbólicas. As práticas artísticas interdisciplinares e transgeográficas são uma ferramenta para a superação de barreiras, para a construção de um espaço comum de diálogo.” Em Madrid, quatro criadores inspiram-se em obras do Museu do Prado e vertem-nas em performances (ver texto ao lado). Nem todas as criações serão vistas em Lisboa. Romão explica que parte criações em estreia mundial “serão apresentadas tanto em Lisboa como em Madrid, mas nem todas”. Porquê? “Queremos que a distância tão curta entre Lisboa e Madrid se torne ainda mais curta, fomentando a circulação de públicos entre as capitais ibéricas.”
Um dos destaques desta edição, “Adilson”, a ópera de Dino D’Santiago, “vai ser apresentada em Lisboa e tem depois circulação nacional por Braga, Aveiro, Faro e Leiria, mas não irá a Madrid”, esclarece o curador. As novas criações encomendadas para o Museu do Prado, em Madrid, aos dramaturgos e encenadores Tiago Rodrigues, Patrícia Portela, Angélica Liddell e Rodrigo García, seguem a mesma lógica. Ou seja, serão apenas apresentadas naquele museu, em Madrid. “Não faria sentido que todos os projetos se replicassem entre ambas as cidades, porque queremos que a travessia deste ‘Camino Irreal’ seja experienciada pelos diferentes públicos das duas capitais.”
Seduzir, sair da rota
Nem de propósito, falemos dos públicos. Da importância de os seduzir, cativar. Como tem sido a adesão dos públicos às propostas da BoCA? Ficamos a saber que a fundação da Bienal teve na sua génese a enorme vontade de “dinamizar estratégias de programação cultural que fomentem o encontro, físico e intelectual, entre públicos diferentes, especializados e não-especializados”, realça Romão. Até porque “os projetos artísticos interdisciplinares podem ser ‘armadilhas’ para construir novos públicos que se reúnem a partir das suas áreas de interesse especializado, como o teatro ou a música”, frisa o curador.
Eprossegue em modo interrogação. “Como podemos mobilizar diferentes públicos a deslocar-se a instituições culturais que estão fora da sua rota e imaginário sociocultural? Quais as práticas de mediação e participação que é preciso conceber para dar resposta a este nosso propósito na BoCA?”.
A programação da bienal tem essa pretensão, vontade feita de experimentação e de parcerias interinstitucionais. Prova dessa dinâmica é o número de instituições culturais de Lisboa e Madrid envolvidas ativamente nesta edição (30), assim como “o convite ao desvio de artistas e de espaços de apresentação diferentes dos habituais no corpo de trabalho desses artistas, de um investimento claro na criação de massa crítica e criativa dos jovens, com os projetos BoCA Sub21 e Mutantes – entre o teatro e o museu, mas também na formação de jovens artistas, através da BoCA Summer School.”
Convidar em vez de excluir
E qual deve ser o papel da Cultura, em sentido lato, em tempos de fake news, derivas populistas, desesperança? A resposta surge de rajada. “A cultura é terreno fértil, onde se sedimentam pilares que possibilitam pontes entre realidades, culturas, identidades e territórios, artísticos ou geográficos, diferentes. É um espaço de troca e pertença. Não exclui. Convida. Não separa. Agrega. Não se vende por cinco minutos de fama. É desafiante e, por vezes, até difícil. Não cria falsas verdades. Cria espaços seguros que estimulam o pensamento crítico e a imaginação. Constrói caminhos alternativos, mais humanos, empáticos, democráticos e resilientes.” Aqui se enquadra, uma vez mais, a proposta da edição 2025 da BoCA: um ‘Camino Irreal’.”
E qual é hoje o lugar do artista e do espetador? “O papel do artista continua a ser o de um agente provocador e, mesmo sem querer, transformador do olhar humano sobre o real. É um direito que temos, de insondável valor.”
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