Um país um pouco maior que Portugal, mas quase tão populoso como o Brasil. Um país para onde correm as águas das montanhas mais elevadas da Terra. Um país em que a esmagadora maioria da população é islâmica, mas que rejeitou ser uma república islâmica. Um país que se tornou independente na luta pelo direito à sua língua. Um país que está perto de ser o centro demográfico do planeta, o círculo com o menor raio possível que inclua mais de metade da população humana da Terra (círculo de Valeriepieris) pouco dista da sua capital. E este país no meio da humanidade é também um dos centros globais das alterações climáticas. O Ganges e o Brahmaputra, gigantes do imaginário religioso, desaguam num delta que alastra por este país nos meses da monção, cujo território raramente se encontra a mais de 5 metros acima do nível das águas. Este país chama-se Bangladesh.
Em 2018 visitei a universidade de Dhaka, a que já chamaram a Oxford do Oriente. Ia entusiasmado com a ideia de um cosmopolitismo de proximidade, de coexistência, ao contrário do cosmopolitismo que se valida voando por todo o planeta, mesmo se incapaz de lidar com o vizinho migrante. No Bangladesh, o desafio é ser cosmopolita logo na rua ao lado e, talvez, por isso seja tão naturalmente emigrante.
Mas a democracia deste país endureceu ao longo dos últimos 15 anos sob o governo de Sheikh Hasina, a filha do pai fundador do Bangladesh independente. Em Julho de 2024, protestos de estudantes contra o sequestro de privilégios por uma elite que se perpetuava no poder foram reprimidos com violência. Quando os militares recusaram intervir, o regime colapsou. Hasina exilou-se na Índia, Yunus, o banqueiro dos pobres, laureado com o Nobel da Paz pela iniciativa do microcrédito, assumiu o governo. Ontem, o Bangladesh teve as primeiras eleições gerais desde a deposição de Hasina e também levou a votos um referendo constitucional para aprovar a Carta de Julho – iniciativa dos partidos políticos para prevenir derivas autocráticas como as que fizeram o passado recente do Bangladesh. Limitação de mandatos, separação de poderes, reforço dos direitos fundamentais, e a confirmação do Bangladesh como estado multi-étnico, multi-religioso, multi-linguístico. Numa comparação possível, consciente dos seus limites, o Bangladesh está a viver o seu 25 Abril.
Hoje, o protagonismo global é deste país. Ao seu lado, somos anões. E sendo um país pobre, tem um PIB que já quase dobra o português. Só a ignorância bem instalada na ultra-periferia europeia pode achar-se em posição de achincalhar estes grandes actores do mundo global com cartazes que, entretanto, os tribunais mandaram retirar.
O autor inicia esta semana uma crónica quinzenal. Primeira paragem deste “Caderno de Viagem”: Bangladesh.
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