Universidades defendem academia como centro de criação de descentralização

Silva Peneda, presidente do conselho geral da UTAD, quer que a descentralização avance, como forma de acrescentar ao interior um novo instrumento de desenvolvimento.

Cristina Bernardo

“Falar de inovação é falar de alterações”, que, num mundo cada vez mais interdependente, tiveram várias consequências com impacto nas relações de trabalho, “nas estruturas sociais, no ensino e na formação, no próprio relacionamento das pessoas e até na forma como se pensa a política”, disse José da Silva Peneda, presidente do conselho geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no âmbito do ciclo de conferências ‘Portugal Inteiro’, da responsabilidade da parceria entre a Altice e o Jornal Económico.

Silva Peneda ateve-se na questão demográfica, que implica diretamente no interior. Mas não apenas: as desigualdades territoriais são um obstáculo ao desenvolvimento, de que aliás Portugal é, na Europa, um bom exemplo: “uma faixa de 25 quilómetros a partir do mar concentra 60% da população; o interior tem apenas menos de dois milhões de habitantes e os jovens concentrados junto ao mar é de 82%”, recordou. “Se nada for feito, o país vai continuar a perder por duas vias: o interior será uma zona cada vez mais limitada” e o litoral cada vez mais problemático, disse, no evento cujo tema específico é ‘Inovação: o interior como oportunidade’.

O antigo ministro social-democrata disse que propôs um conjunto de medidas em favor do interior, já apresentadas quer ao Governo quer a Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. E elencou alguns pontos: regime fiscal com descriminação positiva – nomeadamente para os grandes projetos; aumentar o apoio de fundos estruturais europeus de 25% para um máximo de 45%, como sucede nos Açores. “As alterações propostas, para serem eficazes, têm de ser radicais. Mas não chegam”, recordou – para se queixar do excesso de centralismo”.

Mas “continuamos a hesitar” quando a questão é a regionalização, disse, para evocar o exemplo espanhol da Galiza para confirmar que esse desígnio tem provas dadas. “O caso da UTAD” é outro exemplo. “Uma universidade deve privilegiar a investigação, mas não chega: inovação, ligação às empresas e ao setor produtivo e o seu funcionamento em rede – nomeadamente no seu «core’ de atividade”, disse.

A academia já fez a sua parte, com o debate interno sobre o que deve ser esse ‘core’ – entretanto vertido para dois planos estratégicos entretanto transformados em letra de forma.

Já antes esse tinha sido o mote para a intervenção anterior. “Procuramos estar próximos das novas formas de empreendedorismo” e essa realidade foi consubstanciada, na UTAD, numa ligação umbilical (por via dos centros de investigação) entre a academia, a autarquia local e as empresas mais relevantes, disse Emídio Gomes, vice-reitor da UTAD.

Mas, para isso, “a decisão política mais ou menos centralizada” é um entrave, uma espécie de efeito colateral, do centralismo que tarda em desaparecer em Portugal. “É mais aliciante, mais útil e mais produtivo” fazer a diferença com uma instituição como a UTAD, recordou o antigo presidente da CCDNorte – que disse que “estamos disponíveis para encarar os desafios” que as empresas quiserem colocar à academia”.

Emídio Gomes disse que a academia “vai muito para além de qualquer decisão” administrativa – criando, por outro lado, empregos, atividade económica – de algum modo sendo um dos vetores de combate à desertificação que o interior sente na pele há tantas décadas.

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A conferência é organizada pelo Jornal Económico e pela Altice e decorre esta terca-feira na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O tema é: “Inovação: o Interior como oporunidade”.
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