Universidades nascem para qualificar e reter quadros

Sistema de ensino superior cabo-verdiano apareceu neste século e é constituído por uma dezena de instituições, a maior parte das quais privadas. Têm nas suas mãos o desafio estratégico de preparar quadros qualificados para construir o futuro do país.

Nasceu em 2008 na periferia da ilha que lhe dá o nome, e a Covid-19 está a levá-la aos quatro cantos do mundo lusófono através do ensino à distância, cuja implementação foi acelerada devido à pandemia. A Universidade de Santiago, que assim dá o primeiro passo na internacionalização, é um exemplo de inovação num país jovem, que já este século tomou nas mãos a decisão de formar profissionais qualificados e de os reter para construir o futuro.

“O ensino superior em Cabo Verde tem cerca de duas décadas. Os dados ainda são muito embrionários, mas acredito que as universidades terão um impacto muito grande em toda a sociedade e na economia”, afirma Luís Rodrigues, director de serviços académicos e chefe do Departamento de Ciências da Educação e Letras da Universidade de Santiago, ao Jornal Económico (JE).

Na cidade de Assomada, onde abriu as suas portas e de onde, passados cinco anos, se expandiu para a Cidade da Praia e para o Tarrafal, onde tem pólos, a Universidade de Santiago contribui para o crescimento e melhoria do sistema de ensino superior. A sua oferta, diversificada, já passou por ajustes, tendo em conta a procura por parte do mercado de trabalho. Neste momento decorrem 19 cursos, dos quais 12 licenciaturas, seis mestrados e uma pós-graduação, nas áreas das Ciências da Educação e Letras, Ciências Económicas Empresariais, Saúde e Tecnologia.
Estudam na Santiago cerca de 1.400 alunos, dos quais mais ou menos 65% são do sexo feminino, coisa rara em África, onde a desigualdade de género ainda é enorme. Luís Rodrigues enfatiza este indicador, vendo-o como um instrumento que permite reduzir assimetrias e desigualdades. Também assinala o papel estruturante da criação pelo Governo da figura do estágio remunerado. “A noção que temos é que Cabo Verde tem um mercado de trabalho difícil, mas há muitas necessidades, então, os jovens, mostrando-se capazes e com uma formação sólida, acabam por conseguir triunfar”.

A Universidade de Santiago é privada. Luís Rodrigues conta-nos que na sua génese esteve um grupo de pessoas da zona Norte, que se uniram em torno do “desígnio de proporcionar aos jovens e à população em geral desta zona do país o acesso a uma educação de qualidade que pudesse vir, finalmente, quebrar as assimetrias existentes em Cabo Verde, e, em particular, nesta ilha”.

 

Formação na mira de todas
Das 10 instituições de ensino superior acreditadas pela Agência Reguladora do Ensino Superior (ARES), apenas duas são públicas. A Universidade de Cabo Verde é a maior do país. Está, neste momento, a construir um novo campus na cidade da Praia, que, nas palavras da reitora Judite Nascimento, traduz “uma nova etapa de crescimento e sobretudo de desenvolvimento”, no encalço desse desígnio de formar quadros de qualidade que ajudem a desenvolver o país. A ligação à realidade do mercado de trabalho ganha forma numa política de parcerias. No essencial, os protocolos de cooperação visam a promoção de oportunidades de emprego a formandos e recém-formados.

Outra instituição de ensino superior pública é a recém-constituída Universidade Técnica do Atlântico. Integra o projeto Campus do mar, que inclui também o Instituto do Mar, na área da investigação, e a Escola do Mar, que opera na formação profissional. Objetivo do projeto? Concretizar a visão estratégica do Governo da Zona Económica Especial de Economia Marítima na ilha de São Vicente (ZEEEM-SV), “sustentada no conhecimento e no desenvolvimento tecnológico e na qualificação de recursos humanos”.

UniPiaget de Cabo Verde, Unica – Universidade Intercontinental de Cabo Verde, Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais, Universidade do Mindelo, Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura, Instituto Superior de Ciências Económicas e Empresariais e Universidade Lusófona de Cabo Verde são as outras acreditadas pela ARES.

Manuel Damásio, presidente dos Grupos Lusófona e Ensinus, diz ao JE que desde que iniciou as atividades, no ano letivo de 2007/2008, a Universidade Lusófona de Cabo Verde já foi frequentada por mais de cinco mil alunos, dos quais se licenciaram cerca de 40%, ou seja, à volta de dois mil. “Hoje são quadros aptos e valiosos ao serviço de Cabo Verde”, destaca.

O objetivo principal é o ensino, a investigação e a prestação de serviços nos vários domínios da ciência, da cultura e das tecnologias, numa perspetiva interdisciplinar e especialmente, com vista ao desenvolvimento dos países e povos de língua portuguesa. “Em média, são diplomados mais de 100 alunos em cada ano letivo; o que é um contributo significativo, numa realidade carente de técnicos e quadros superiores”, adianta Manuel Damásio.

Mais recentemente, a Ensinus realizou uma parceria com o grupo hoteleiro Oásis visando, em cooperação com a Câmara Municipal do Sal, a criação de uma Escola de Formação Profissional. “Percebemos que existe por parte do Estado e do Governo cabo-verdianos um conjunto de necessidades que decorrem das áreas estratégicas que o país definiu”, acrescentou ao JE Teresa Damásio, administradora do grupo. Poderá, assim, ser a próxima instituição de ensino a vir a nascer no arquipélago.

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