A Doutrina Monroe é uma posição de política externa dos Estados Unidos que se opõe ao colonialismo europeu no chamado Hemisfério Ocidental e sustenta que qualquer intervenção nos assuntos políticos das Américas por potências estrangeiras é um ato potencialmente hostil contra os Estados Unidos. À época, França, Espanha, Portugal, e Países Baixos, entre outros, assumiam interesses políticos e económicos sobre o Canadá e sobre os mais diversos países da América central e do Sul – com alguns deles a lutarem ativamente pela sua independência. Para James Monroe, que foi presidente dos Estados Unidos entre 1817 e 1825, a ideia era escorraçar do continente qualquer influência futura do Velho Mundo sobre o Novo Mundo.
Daí resultou um empenhamento dos Estados Unidos em todos os palcos dessa deriva independentista, que se manteve ao longo do resto do século XIX e do século XX. Mas a doutrina patrocinou uma reviravolta: depois do apoio às independências, passou a ser pretexto doutrinário para os Estados Unidos se imiscuírem nas políticas internas dos países ao sul do seu território. O primeiro grande ‘caso’ foi o do auxílio à independência do Panamá, um território da Colômbia. Os Estados Unidos, maiores interessados na conclusão do que viria a ser o Canal do Panamá (cuja construção fora iniciada pela França), iniciam negociações com o governo colombiano e, no início de 1903, ambos os países assinaram o Tratado Hay-Herran, segundo qual os Estados Unidos adquiriam o direito sobre uma faixa de 9 km durante 99 anos renováveis. Mas o senado colombiano não ratificou o acordo, pelo que os norte-americanos optaram por passar a financiar movimentos separatistas locais que basicamente não tinham qualquer expressão. Os separatistas proclamaram a independência do Panamá em 3 de novembro de 1903 e os Estados Unidos apressaram-se em reconhecer o novo país.
Logo no ano seguinte, o então presidente norte-americano, Theodore Roosevelt, acrescentou à Doutrina Monroe uma espécie de adenda, que ficou conhecida como o Corolário Roosevelt. Na Mensagem Anual do Presidente ao Congresso dos EUA de 1904, Roosevelt declarou que os Estados Unidos passavam a estar dispostos a ocupar militarmente países que estivessem passando por uma crise de dívida externa.
Em 1933, com o presidente Franklin D. Roosevelt, os Estados Unidos afirmaram outra via mais pacífica e menos intrusiva, quando estiveram presentes na fundação da Organização dos Estados Americanos. Mas voltaram por diversas vezes ao plano do século XIX. Mas foi por pouco tempo. A Doutrina Monroe serviu para praticamente tudo: para criar um país mais ou menos fictício (o Panamá); para suportar ideologicamente intervenções militares diretas ou secretas (guerra hispano-americana, 1898, guerra filipino-americana, 1899, guerras das bananas, 1990, nas Honduras, Cuba, República Dominicana e Nicarágua, intervenção na Venezuela, 1902, intervenção na Guatemala, 1954, invasão da Baia dos Porcos, em Cuba, 1961); e para apoiar com dinheiro e armas grupos contrários aos governos instalados. Este último grupo é o mais numeroso e aconteceram nos últimos 60 anos: República Dominicana, Cuba, Brasil, Bolívia, Chile (o primeiro 11 de setembro), El Salvador, Granada e Panamá. Não esquecer ainda rocambolesca peripécia ‘Irão-contras’, na Nicarágua, que, em 1984, contou com o benefício da ajuda da Mossad israelita.
Vale a pena recordar que, no primeiro semestre de 2008, os Estados Unidos decidiram reativar a chamada 4.ª Frota da Marinha dos Estados Unidos – responsabilizando-a (como sucedera entre 1945 e 1947) pela prontidão das armas norte-americanas nas Caraíbas e América do Sul. Era então presidente George W. Bush. Ou seja, Donald Trump é apenas o mais recente presidente dos Estados Unidos a evocar a quase sensata doutrina e a invocar James Monroe, que, coitado, já desapareceu há quase 200 anos.
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