A destruição causada pela tempestade Kristin atingiu fortemente uma das zonas mais industrializadas e exportadoras do país, responsável por 20% do PIB nacional, e os danos já ascendem a pelo menos 4 mil milhões de euros, segundo estimativa do Governo – um valor que ainda pode aumentar com novas intempéries. Ainda assim, e dada a contabilidade do PIB, o efeito líquido final pode até ser positivo, dado que a destruição de capital não é incluída no cálculo do indicador, pelo que o objetivo de crescimento para este ano não está hipotecado.
O impacto da depressão Kristin no país é notório, com 69 municípios em situação de calamidade e inúmeras casas e empresas com problemas de infraestrutura, fornecimento elétrico, de gás ou água, acessos limitados e comunicações instáveis. A região Centro foi a mais afetada, mas também o Oeste e Vale do Tejo, além do município de Alcácer do Sal, no Alentejo Litoral.
Contas feitas, são 20% do PIB nacional de 2024 afetados diretamente. A região Centro representou, de acordo com o INE, 13,7% da produção do país naquele ano, com Coimbra a pesar 3,66%, Aveiro outros 3,44% e Leiria mais 2,65%; já no Oeste e Vale do Tejo, que chega a 6,3% do PIB, a região da Lezíria do Tejo, onde se inclui Santarém, pesa 1,93% do total nacional e o Médio Tejo contribui com 1,59%.
Focando na zona mais afetada, a região Centro, o peso em termos de emprego e empresas é notório. São quase 300 mil empresas naquela zona, com 59 mil em Coimbra, das quais 2.503 são da fileira industrial, às quais se juntam 49 mil de Aveiro e 41 mil de Leiria, com 3.682 e 3.126 pertencentes ao setor secundário.
Por outro lado, dada a importância exportadora da região, a componente externa enfrenta agora nova adversidade. Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), explica que “a interrupção da atividade nestas zonas coloca, assim, em risco encomendas internacionais relevantes, com repercussões negativas no desempenho exportador nacional”, que já vinha sofrendo com a tempestade comercial global.
Reconstrução deve superar paragem
Perante isto, o impacto imediato na economia é inescapável, sobretudo olhando à economia real, com boa parte do tecido produtivo destas zonas impedido de laborar. Ao JE, Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, explica como, “paradoxalmente”, o impacto líquido no PIB até pode vir a ser positivo apesar do drama vivido.
“Há três tipos de impacto. O primeiro é o da destruição do stock de capital, ligado à infraestrutura”, começa por ilustrar. O segundo “é o da interrupção da produção, mais nítida na indústria”, dada a falta de condições nas fábricas, porque “voaram telhados, estragaram máquinas e, nalguns casos, não há eletricidade ou água”. Finalmente, o terceiro efeito prende-se com a reconstrução.
Numa ótica do PIB, continua, “o primeiro elemento não é contabilizado”, dado que este indicador não se funciona como um balanço. Nesse caso, sim, “veríamos uma perda de riqueza”; mas em contabilidade nacional apenas os dois outros efeitos terão repercussões, pelo que, caso o investimento na recuperação ultrapasse a perda causada pela interrupção laboral, “o impacto total sobre o PIB até pode ser marginalmente positivo”.
Este esforço de reconstrução enfrenta, contudo, uma dificuldade clara. O país vivia já antes da tempestade em pleno emprego e o aumento da procura nestas regiões, ainda por cima associado ao ramo da construção – que tem sido dos mais condicionados pela escassez de trabalhadores – arrisca dificultar o processo.
Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP) converge nesta análise. Lembrando que o PIB “é um fluxo, não um stock”, o impacto será mais evidente sobretudo no primeiro trimestre – depois disso, este “vai ser compensado pelo efeito positivo da reconstrução”. O Governo não pode, portanto, “usar esta desculpa se não conseguirem atingir” os 2,3% de crescimento previstos para este ano, sobretudo considerando que existe margem orçamental para executar mais investimento do que no ano passado.
Do lado das contas públicas, o impacto também se deverá diluir ao longo do ano, projetam ambos os economistas. Por um lado, a expectativa de recuperação trará mais impostos, ajudando a compensar o acréscimo de despesa, denota Óscar Afonso; por outro, e estando apenas em fevereiro, a margem para cativações no investimento é ainda bastante considerável, completa Pedro Braz Teixeira.
“Também aqui, com mais atividade, não podem [Governo] usar isto como argumento para não cumprirem aquilo que está projetado”, remata o diretor da FEP.
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