O BNP Paribas reviu esta terça-feira em alta a sua previsão para o preço médio do ouro, em 2026, em 27%, para os 5.620 dólares por onça, com um pico provável acima dos 6.250 dólares até ao final do ano. Para 2027, a estimativa subiu de 4.900 dólares para 6.060 dólares. A persistente incerteza macroeconómica e geopolítica justificam esta decisão da instituição bancária.
“A política comercial dos Estados Unidos está mais uma vez em fluxo, enquanto o progresso modesto num acordo entre a Rússia e a Ucrânia, as tensões no Golfo Pérsico e a política externa dos Estados Unidos em relação à Venezuela e à Gronelândia continuam a aumentar a procura de ativos de refúgio”, disse o estrategista em commodities (matérias-primas na tradução portuguesa) do BNP Paribas, David Wilson.
David Wilson assinalou que as preocupações com a independência da Reserva Federal norte-americana (Fed) “podem ter diminuído” por agora, mas acredita que esta “incerteza mais ampla continuará a sustentar” a procura de ouro. Quanto à decisão do Supremo Tribunal norte-americano de anular as tarifas de Donald Trump, “gerou novas incertezas” em torno da política comercial americana e do seu impacto económico.
“Espera-se que a compra de ouro pelos bancos centrais volte a subir em 2026. Países como a Polónia continuam a acumular reservas, enquanto a China prossegue num esforço acelerado de desdolarização da sua economia”, salienta o BNP Paribas.
“Os bancos centrais compraram 397,1 toneladas (12,8 milhões de onças) de ouro no ano passado, um aumento de 7% em relação a 2024 e a taxa de compra mais elevada em três anos. Os volumes ficaram muito abaixo do pico de 2015, de 913,4 toneladas (29,4 milhões de onças), impulsionado principalmente pela compra de 708,2 toneladas (22,8 milhões de onças) pelo Banco Popular da China (PBoC), mas esperamos que os volumes voltem a crescer este ano, ultrapassando as 400 toneladas. Vemos esta tendência de acumulação de ouro como um factor positivo para o sentimento em relação aos preços”, salientou o estrategista em commodities.
“O Banco Nacional da Polónia (NBP) foi o maior comprador de ouro do sector oficial em 2025, acumulando 102 toneladas (3,3 milhões de onças), um aumento de 14% em relação ao ano anterior. A 20 de janeiro deste ano, o NBP aprovou planos para comprar mais 150 toneladas (4,8 milhões de onças), o que elevaria as suas reservas para 700 toneladas (22,5 milhões de onças). No entanto, a aprovação não especificou um prazo para esta acumulação adicional”, refere a instituição bancária.
O Banco Popular da China (PBoC) terá comprado 26,7 toneladas (860 mil onças) de ouro no ano passado, com os volumes a “caírem acentuadamente” no quarto trimestre, à medida que os preços do ouro disparavam – os volumes mensais de Outubro a Dezembro tiveram uma média de apenas 0,9 toneladas (30 mil onças), diz a nota do banco.
“Em janeiro, porém, os volumes saltaram para 1,2 toneladas (40 mil onças). Embora um mês não represente uma tendência, esperamos novas medidas de desdolarização por parte do PBoC até 2026, o que nos leva a crer que os volumes de compra de ouro poderão ser superiores em 2026 do que em 2025”, acrescentou David Wilson.
A instituição bancária assinala que comprando em baixa a 3 de fevereiro, a correção do final de janeiro/início de fevereiro “pode oferecer uma oportunidade para se posicionar” para um máximo a longo prazo.
David Wilson diz ainda que a instituição bancária vê a procura de investimentos em ouro físico como um “fator chave” em 2026. “Talvez o indicador mais claro do interesse dos investidores pelo ouro físico seja a tendência contínua de acumulação por parte dos external traded funds (ETF) garantidos pelo ouro físico. Os fundos acrescentaram 15,5 milhões de onças às suas reservas em 2025 e os volumes continuaram a crescer no início de 2026. Foram adicionados cerca de dois milhões de onças nos dois primeiros meses, à medida que a procura dos investidores por exposição a ativos físicos continua a aumentar face à crescente preocupação com o aumento dos riscos noutras classes de ativos”, assinalou o estrategista.
A previsão da instituição bancária aponta para que a procura física na China volte a aumentar em 2026. “Os investidores chineses compraram 13,8 milhões de onças de ouro em barras e moedas até 2025, um aumento de 29% em relação a 2024, de acordo com dados do Conselho Mundial do Ouro – e isto exclui as compras de ETF domésticos chineses ou do Banco Popular da China e de outras instituições oficiais. Acreditamos que o apelo do ouro na China é claro – os veículos de investimento tradicionais, como o imobiliário, continuam a apresentar um desempenho dramaticamente inferior e as taxas de juro domésticas continuam muito baixas”, referiu o estrategista.
“A procura física chinesa parece ter persistido no início de 2026, com os preços na Bolsa de Ouro de Xangai a serem negociados com prémios significativos em relação à Chicago Mercantile Exchange (CME, ou bolsa de Chicago onde se transacionam, entre outras coisas, commodities) em Janeiro. Acreditamos também que as compras de ouro na Ásia no início de fevereiro foram um suporte fundamental após a correção do final de janeiro, ajudando a impulsionar o preço de volta acima dos 5.000 dólares/por onça a 4 de fevereiro. Esperamos um renovado interesse de compra por parte da Ásia agora que o período do Ano Novo Lunar já passou”, adiantou David Wilson.
A nota do BNP Paribas aborda ainda o bitcoin e as stablecoins. O bitcoin já acumula uma desvalorização de 22% desde o início do ano, para os 67.442 dólares (58.070 euros à taxa de câmbio atual), e já perdeu 45% face ao máximo de outubro de 2025.
“Embora o bitcoin tenha sido inicialmente concebido como um porto seguro digital, o seu desempenho ao longo de 2025 e 2026 sugere que continua a ser negociado como um ativo sensível ao risco”, assinala David Wilson. “Durante períodos de incerteza macroeconómica e geopolítica, observamos que os preços do bitcoin se comportam de forma semelhante às ações, demonstrando sensibilidade ao sentimento de risco mais amplo”, sublinha o estrategista em commodities.
“À medida que os preços do ouro sobem, acreditamos que uma queda no bitcoin indica uma rotação de ativos sensíveis ao risco para ativos de refúgio tradicionais”, considera David Wilson.
“A ascensão das stablecoins lastreadas em ouro introduz uma nova camada de liquidez nos mercados digitais. À medida que as stablecoins lastreadas em ouro continuam a valorizar, acreditamos que isto aponta para um potencial grande aumento da procura de ouro físico”, disse o estrategista do BNP Paribas.
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