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Meloni dá ‘canelada’ a Macron: juros franceses já superam os italianos

O impensável aconteceu: os investidores acreditam que a dívida francesa tem mais risco que a italiana. Primeiro teste de fogo de Macron chega na sexta-feira com a primeira agência de rating a emitir uma nota sobre o país. Franceses tomam hoje as ruas em protesto e prometem bloquear tudo. Aliado de longa data de Macron é o novo PM e vai reunir-se com a oposição para tentar chegar a acordo para Orçamento para 2026.
Ursula von der Leyen, Emmanuel Macron, Giorgia Meloni, from left to right
10 Setembro 2025, 07h00

É uma das relações políticas mais complicadas da Europa atualmente e ganha agora mais achas para a fogueira. A tensão entre Emmanuel Macron e Giorgia Meloni tem tido vários episódios. Um dos mais recentes foi a troca de galhardetes entre Paris e Roma devido à política fiscal italiana para atrair fortunas estrangeiras num momento em que em França discute aumentar a carga fiscal.

A Assembleia Nacional chumbou a moção de confiança apresentada por François Bayrou e o presidente francês já anunciou o novo primeiro-ministro: Sebastien Lecornu, um aliado de longa data de Macron.

Agora, é o facto inédito de os juros da dívida francesa terem superado durante a sessão na terça-feira os juros italianos, a primeira vez que tal aconteceu. É certo que depois corrigiram, mas isto significa que os investidores acreditam que há um risco maior em comprar dívida francesa face à italiana, algo impensável há pouco tempo atrás.

França está também a caminho do quinto primeiro-ministro em dois anos, algo que pode ser comparado à típica instabilidade governativa italiana, até há poucos anos.

Esta quarta-feira, a rua francesa vai protestar, com os franceses a prepararem-se tomar as ruas em protesto. O movimento “Bloquons Tout” (bloqueiem tudo), que nasceu nas redes sociais, prepara-se para protestos hoje em todo o país, com o movimento a ser já comparado aos Coletes Amarelos.

Historicamente, as obrigações transalpinas têm recompensado melhor os investidores devido a maiores riscos económicos-financeiros associados a Itália. No pico da crise das dívidas soberanas em 2012, os juros italianos estavam 4 pontos acima dos gauleses. Em 2022, o spread atinge dois pontos de diferença. Mas a estabilidade do Governo de Giorgia Meloni levou os mercados a apostarem mais em Itália, a par do esforço do país para consolidar a sua dívida.

O grande desafio de Emmanuel Macron agora é convencer as agências de rating que o novo primeiro-ministro vai conseguir dar a volta à instabilidade política e conseguir colocar o país no bom rumo financeiro e económico, com um novo orçamento do Estado para o próximo ano.

A primeira agência a pronunciar-se é a Fitch que divulga a sua nota na próxima sexta-feira, 12 de setembro. Atualmente, atribui AA- a França com uma perspetiva negativa. Em outubro e novembro seguem-se a Moody’s (Aa3) e a S&P Global (AA-), respetivamente. Já Itália está uns degraus abaixo: com BBB+ da S&P, Baa3 da Moody’s e BBB da Fitch.

“Os ‘spreads’ franceses são consistentes com uma descida do rating”, disse à “Bloomberg” Guillermo Felices da PGIM Fixed Income.

A mudança que teve lugar na terça-feira deveu-se a questões técnicas: a obrigação gaulesa que serve de benchmark passou a ter uma maturidade mais longa face à transalpina, mais uns meses, mas os analistas apontam que marca a continuação de uma tendência que arrancou há vários anos e acontece num momento de grande pressão para Emmanuel Macron.

“A expetativa é que o próximo PM seja para ficar. Para os investidores, a grande preocupação é que o eleitorado não vai formar uma maioria clara e não parece preocupado com a deterioração orçamental”, segundo Elliot Hentov da State Street Investment Management, citado pela “Bloomberg”.

Para Sam Hill do LLoyds, “as expetativas para um desfecho rápido dos problemas políticos e orçamentais em França deverão permanecer constrangidos”, afirmou, apontando que as obrigações gaulesas vão continuar sob pressão.

Sébastien Lecornu é o novo primeiro-ministro francês

Sébastien Lecornu é o novo primeiro-ministro de França. O atual ministro da Defesa foi o escolhido por Emmanuel Macron para suceder a François Bayrou. Tem integrado todos os executivos desde 2017.

A escolha do Palácio do Eliseu recaiu sobre um aliado de longa data do presidente francês para tentar aprovar o Orçamento do Estado do próximo ano numa Assembleia Nacional dividida.

Lecornu será o quinto primeiro-ministro no espaço de dois anos. Os dois anteriores – Michel Barnier e François Bayrou – foram demitidos após tentarem aprovar orçamentos para reduir o défice francês, o mais elevado da zona euro.

Na Assembleia Nacional, o novo executivo vai deparar-se com a oposição feroz da União Nacional de extrema-direita, e a França Insubmissa de extrema-esquerda, que têm rejeitado as políticas de Macron e já exigiram novas eleições legislativas.

O executivo Lecornu vai precisar do apoio tanto da esquerda como da direita para aprovar o Orçamento do próximo ano, ou tentar que se abstenham para que o executivo mantenha-se em funções, sem novas eleições.

“A ação do primeiro-ministro será guiada pela defesa da nossa independência e do nosso poder, pelo serviço aos franceses e pela estabilidade política e institucional para a unidade do país”, disse o Palácio do Eliseu em comunicado.

O executivo Bayrou tinha tentado aprovar cortes nos custos público de 44 mil milhões de euros em 2026 para tentar reduzir o défice orçamental e a dívida pública.

Mas dos 364 deputados na Assembleia Nacional, apenas 194 deram o seu voto de confiança.

Desde as eleições legislativas antecipadas do verão de 2024 que o Parlamento francês está extremamente dividido. Lecornu será o sétimo primeiro-ministro desde que Macron foi eleito pela primeira vez em 2017 e o quinto desde 2022.

Lecornu vai consultar as diferentes forças políticas no parlamento para tomar decisões sobre o próximo Orçamento e atingir “acordos indispensáveis para as decisões dos próximos meses”, segundo o Eliseu.

Marine Le Pen da Reunião Nacional já reagiu: “O presidente está a disparar o último cartucho do Macronismo (…). Após as inevitáveis eleições legislativas futuras, o primeiro-minsitro será Jordan Bardella”, responsável do seu partido.

Já Jean-Luc Mélenchon da França Insubmissa disse que esta é uma “comédia triste”. “Pode ser que a saída de Emmanuel Macron coloque fim a esta comédia triste”.

Por seu turno, o ex-PM Michel Barnier disse que o “país precisa de unidade”.

Para Yaël Braun-Pivet, presidente da Assembleia Nacional, Lecornu é um “excelente ministro”.

“Farei tudo para que possa trazer estabilidade ao nosso país. Ele é bastante capaz”, afirmou citada pelo “Le Figaro”.

Para Marine Tondelier dos Ecologistas, a resposta ao novo PM de Macron será dada pelos franceses esta quarta-feira nas ruas nos protestos inorgânicos agendados para hoje.

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