De nove biliões de dólares em 2007, último ano antes da crise financeira global, o stock de dívida pública dos EUA disparou para quase 37 biliões na leitura mais recente. Uma trajetória que coloca os nervos em franja a inúmeros analistas e investidores, que temem nova hecatombe na economia global causada por esta anomalia macroeconómica.
Trump, que lista como um dos seus vários cognomes o de ‘Rei da Dívida’, parece determinado a agravar esta trajetória, mesmo depois de chamado repetidas vezes à atenção para este problema.
A ‘One Big Beautiful Bill Act’, a lei orçamental de Trump, deverá agravar a dívida norte-americana em 3,4 biliões de dólares (2,9 biliões de euros) ao longo dos próximos 10 anos. Uma fatura que salta para lá dos quatro biliões (3,5 biliões de euros) se incluir os gastos com o serviço da dívida – uma componente que já representa mais do que os gastos com defesa ou com o Medicare, saltando de 6% da despesa pública em 2020 para 13% em 2024.
Com um stock em função do PIB já em 124,3% no final do ano passado (próximo do máximo histórico de 126,3% registado no ano da Covid-19), esta evolução tem gerado cada vez mais preocupações a nível global. Isto porque, cerca de 9,2 biliões de dólares (oito biliões de euros) de dívida atingem a maturidade este ano, um nível nunca antes registado.
Juntando a isto os estimados 1,9 biliões de dólares (1,6 biliões de euros) do défice projetado para este ano, a emissão de dívida este ano superará os 10 triliões, um valor recorde na história económica global. E, com os juros de referência ainda em valores elevados, não é de admirar que Donald Trump esteja a pressionar repetidamente Jerome Powell e a Fed a cortar taxas.
Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros, destaca que os analistas se têm “mostrado mais inquietos com a perspetiva de subida da dívida do que os mercados”, pelo que “não se pode dizer que o mercado esteja muito agitado ou mostra preocupação”.
O cenário não é, contudo, animador. Ainda assim, há especificidades que devem ser consideradas no caso norte-americano e situações passadas em que a dívida ameaçava tornar-se um problema a analisar, traçando paralelos e distinções em relação a 2025. No final dos anos 80, Nova Iorque chegou a ter um famoso ‘relógio da dívida’, dado que uma subida no endividamento combinada com um ambiente de taxas de juro elevadas levou a um disparo no serviço da dívida em função do PIB.
No entanto, como destaca a analista financeira Lyn Alden, dois fatores deflacionários foram determinantes na década seguinte: a abertura da China ao comércio mundial e a queda da URSS, que inundaram o mercado global com mão de obra e recursos baratos. Este efeito ajudou a manter os juros baixos, tornando mais fácil a gestão de um stock crescente de dívida – mas num mundo em que estes potenciais choques do lado da oferta são cada vez mais escassos, a tendência preocupa.
Default é solução?
Uma opção para lidar com esta pressão é permitir defaults seletivos, ou seja, em parcelas da dívida norte-americana. Tal poderia materializar-se por duas vias principais: por investidores estrangeiros ou pela Reserva Federal, que detém pouco mais de 4 biliões de dólares (3,4 biliões de euros) em títulos do Tesouro.
Olhando para o stock de dívida, cerca de um quarto do total, ou 9 biliões (7,7 biliões de euros), é detida por investidores externos, que se dividem em quatro biliões (3,4 biliões de euros) detidos por soberanos e o restante por privados. A lista é liderada pelo Japão, com 1,13 biliões de dólares (971,8 mil milhões de euros), seguindo-se o Reino Unido, com 807,7 mil milhões (694,7 mil milhões de euros), e a China, com 757,2 mil milhões (651,3 mil milhões de euros), que largou recentemente o segundo posto após anos a liquidar estes títulos.
A título de comparação, os agentes portugueses detêm, de acordo com os dados do Tesouro norte-americano, 15,2 mil milhões de dólares (13,1 mil milhões de euros), muito distante do topo.
Ainda assim, e considerando que a maior parte dos países que mais dívida dos EUA têm são aliados de Washington, um default traria sérias repercussões para a credibilidade norte-americana, mesmo que junto de um país adversário como a China, escreve Lyn Alden. Por outro lado, um default junto do banco central tornaria a Fed insolvente e, por consequência, mataria a sua independência.
“Em resumo, não devemos a nós próprios”, esclarece Lyn Alden, pelo que estratégias de default seletivo teriam “um ricochete” altamente danoso o governo federal. Em sentido inverso, a base monetária dos EUA é de cerca de seis biliões de dólares (5,2 biliões de euros) e há pelo menos 18 biliões (15,5 biliões de euros) em títulos denominados em dólares no sector privado global, o que significa que “há uma procura astronómica e inflexível por dólares domesticamente e por todo o mundo”.
“Noutras palavras, as pessoas subestimam muito quanto a base monetária dos EUA teria de crescer antes de gerar uma verdadeira crise do dólar. Daí que use a frase ‘nada para este comboio’: os défices são mais intratáveis do que os ‘touros’ acham”, resume.
Filipe Garcia converge na avaliação. “À medida que a situação se for deteriorando – e essa deterioração vai depender muito da evolução do PIB nominal e da credibilidade das instituições dos EUA – é provável que o dólar possa ir enfraquecendo, mas uma ‘fuga desesperada’ de T-Bonds parece-me pouco provável por ausência de alternativas, embora seja de esperar que o mercado possa ir exigindo retornos mais altos.”
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