Com França como protagonista, o “ecossistema fintech europeu é bastante saudável”. A análise é da vice-presidente de Fintech & Enablers da Mastercard Western Europe, Elena Martinez, que falou com o Jornal Económico (JE) sobre as tendências das fintech no espaço europeu, nomeadamente o potencial da IA para o setor, que classifica como “vasto e entusiasmante”.
Sem ficar de fora da conversa ficou a jornada da Mastercard como agente educativo nesta área, não tivesse sido o “Mastercard For Fintechs 2025”, um programa que conecta, educa e acelera fintechs em toda a Europa Ocidental, o facilitador desta conversa.
Segundo Elena Martinez, França é um exemplo de um “mercado muito forte e maduro de fintech” no plano europeu. Isto excluindo o Reino Unido, que continua a ser “o maior”, acrescenta a mesma responsável, sublinhando também o crescimento e importância de Espanha, Portugal, França, Itália, Bélgica e Luxemburgo.
Mas como é o ecossistema em Portugal? “É um grande mercado de startups. Há muitas startups a ser criadas lá, porque há um ecossistema muito saudável no sentido de apoio fiscal e regulador. Quanto às fintechs, o cenário muda ligeiramente. “O ecossistema de pagamentos em Portugal é um pouco mais complexo. Por isso é que vemos menos atividade nas fintechs do que nas startups gerais”.
Voltando ao “Mastercard For Fintechs 2025”, cuja primeira edição teve como vencedor a empresa portuguesa Rauva, no ano passado, Elena Martinez explica ao JE o papel que a tecnológica de pagamentos tem desenvolvido no apoio às fintechs com a promoção de “um ambiente inovador e competitivo”.
“Para nós, é muito importante que se prospere num ambiente de inovação. Quando idealizámos este programa, e considerando que vemos a tecnologia financeira como um motor de crescimento vital no ecossistema, pensámos: como podemos apoiar as fintech e ajudá-las a escalar e ter sucesso?”
E é esse o propósito do programa, baseado em três pilares – educação, eventos e competição, e que juntou 244 fintechs nesta segunda edição. Na final em Barcelona, que decorreu em meados de novembro, esteve a empresa portuguesa Paynest, fundada em 2022. “Estamos a tentar apoiar o sistema fintech para levar toda a indústria para o próximo patamar. E é por isso que programas como este são importantes para nós”, afirmou na mesma conversa com o JE.
Segundo Elena Martinez, que sublinha o papel de enabler da Mastercard, as empresas “precisam de ajuda para conseguirem escalar além dos seus próprios países”. “E mesmo dentro dos seus países, precisam, de alguma forma, de se ligarem a parceiros que podem ajudá-los a lançar as suas soluções”.
E o selo Mastercard, para aqueles que participam na competição. “A nossa marca é muito poderosa, que pode ser associada aos seus serviços. Está listada no 12.º lugar mundialmente”.
Passando ao eixo da educação, um dos campos em que a Mastercard tem investido, Martinez sublinha a complexidade e cariz técnico do mundo dos pagamentos. “Não é fácil de entender. Geralmente, pedem-nos conselhos e apoio sobre como lidar com vários desafios. Toda a cadeia de valor do espaço de pagamentos não é fácil de perceber”. A empresa disponibilizada uma plataforma de aprendizagem para todas os fintechs registadas no programa. Segundo a mesma responsável, 40% das fintechs que registaram no programa são utilizadoras ativos na plataforma de aprendizagem online do Masterclass Fintech.
Inovação e pequenas e médias empresas (PME)
De acordo com Elena Martinez, existe “muita inovação no espaço das PME”, que representam 99% das empresas na Europa. “É um setor que tem sido, tradicionalmente, mal servido pelas instituições financeiras”. “É um mercado muito grande. E há muito a fazer para melhorar as PME. Seja na automação, nas necessidades bancárias que tenham, melhorando os fluxos de dinheiro”. E a cibersegurança. “Está-se a tornar num tópico crítico e uma prioridade estratégica para todas as organizações. Há uma necessidade, não só bancos e fintechs, mas de todas as empresas e de todos os mercados”.
De acordo com um estudo publicado esta ano pela Mastercard, em Portugal em 79% das PME os proprietários revelaram ter problemas “em tentar entender como lidar com problemas de cibersegurança”, recordou. “E, nalguns casos, não sabem como usar, por exemplo, a AI para a prevenção de fraude”.
Tendências das fintechs na Europa
Quem está por dentro do setor tem observado várias “tendências interessantes” na esfera fintech em termos europeus, diz Elena Martinez. São elas, entre outras, a “mudança do foco no crescimento para a rentabilidade, impulsionada pelo ambiente difícil de captação de investimento; e a consequente consolidação (já em curso), com a Cobee a ser adquirida pela Pluxee, a Rebellion Pay pela Papara, entre muitas outras no último ano”. Esta, sublinha, é “uma tendência que se prevê que se mantenha durante algum tempo”.
Além disso, é esperado também o aumento da “relevância de cripto e blockchain, assente na nova regulamentação (como o MICA ou a “travel rule”)”.
De acordo com Martinez, aludindo a estudos de mercado, prevê-se que o mercado global de IA em fintech alcance 26,6 mil milhões de dólares até ao final do ano.
Por trás da adoção está a “melhoria da experiência do cliente ao aumento da eficiência operacional, passando pela deteção de fraude, gestão de risco mais eficaz, entre outros”, listou, acrescentando a “automatização de tarefas rotineiras até à personalização de produtos financeiros e descoberta de insights valiosos escondidos nos dados”. “O impacto da IA na área financeira é inegavelmente profundo”.
Segundo Elena Martinez, que se juntou à Mastercard há mais de sete anos, “o potencial da IA na fintech é vasto e entusiasmante”. “Estamos apenas no início desta jornada e o impacto total que terá no setor financeiro ainda está por revelar”, sublinhou.
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