Nada disto é literal. A Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, não está em chamas. Mas convocou-as para iniciar 2026 com um ciclo que celebra a arte da projeção analógica. “Uma Cinemateca em Chamas – História de Projeção e Projecionistas” inaugura a programação de 2026 com mais de sessenta filmes em suporte original. Mas não só. A iniciativa e acompanhada por uma exposição documental e sessões comentadas que realçam o papel técnico e humano na sala escura.
O objetivo é dedicar o mês de janeiro à importância e papel da película e dos profissionais que, a partir da cabine, operam a magia das imagens em movimento. O foco é colocado na experiência física do espetador e na preservação das técnicas tradicionais de exibição, numa altura em que a figura do projecionista foi amplamente substituída por processos automatizados no circuito comercial.
O programa inclui desde as primeiras experiências dos irmãos Lumière até à estética das sessões de exploração do século XXI. Entre os destaques figuram obras projetadas nos seus formatos originais, como “The Purple Rose of Cairo”, de Woody Allen, e os dois volumes de “Gremlins”, de Joe Dante, ambos em 35 mm. O cinema experimental marca presença com “The Flicker”, de Tony Conrad, em 16 mm, e o trabalho de Jerome Hiller. A diversidade de suportes é explorada de forma radical em “We Can”t Go Home Again”, de Nicholas Ray, que funde 35 mm, 16 mm, Super 8 e vídeo. O cartaz inclui ainda a experiência do cinema tridimensional com a exibição em 3D de “Dial M for Murder”, de Hitchcock, e “Cavalcade”, de David Crosswaite.
A memória histórica da sétima arte será invocada por oito profissionais da Cinemateca Portuguesa, desafiados a programar uma “Carta Branca” através da seleção de filmes que marcaram as suas carreiras e memórias na sala
escura. Numa sessão pedagógica especial, o chefe de cabine José Martins demonstrará o funcionamento de quatro projetores distintos – 8 mm, 9.5 mm, 16 mm e 35 mm – explicando as especificidades mecânicas e visuais de cada formato enquanto projeta pequenas fitas.
Complementarmente às sessões de cinema, a exposição “O Regresso do Cometa Halley – histórias de projeção e projecionistas” ocupará vários espaços do edifício, apresentando coleções de aparelhos, documentos e iconografia que narram a evolução tecnológica da projeção.
De regresso às “chamas” do título deste ciclo, deixamos uma pista do porquê desta escolha: é simbólica e remete para o incêndio que, em 1981, destruiu a sala da Cinemateca devido à combustão de película de nitrato, sublinhando a natureza frágil e inflamável da matéria-prima do cinema.
O ciclo tem início a 2 de janeiro e pode ver aqui a programação.
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