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Consultoras vivem mudanças no mercado e reforçam ‘chatbots’

Em compasso de espera para saber os trâmites da sociedades pluridisciplinares em Portugal, as firmas de consultoria investem na digitalização. A PwC Portugal terá ChatGPT para juristas em breve.
26 Março 2023, 11h00

As empresas de consultoria financeira e de gestão operam este ano numa conjuntura repleta de variáveis que influenciam o seu negócio. Um dos fatores, senão o principal, a atingir a evolução deste mercado é o contexto macroeconómico nacional e internacional, que este ano não se avizinha tão auspicioso.

Cristina Sousa Dias, sócia da BDO, diz ao JE que a multinacional tem estado a adequar os seus serviços aos vários ciclos económicos, até porque, nestes períodos de maior risco de insolvências, as transações tendem a intensificar-se, “com algumas vantagens proporcionadas pelas reestruturações e consolidações sectoriais”. Apesar de não antecipar que o crescimento se mantenha ao mesmo ritmo (só no último triénio a BDO Portugal cresceu 43%, sendo que a área de consultoria subiu 52%), devido à instabilidade do mercado, crê que estes desafios de mercado irão criar oportunidades tanto internamente como para os seus clientes, sobretudo em M&A, compliance, transformação digital e sustentabilidade.

“A subida das taxas de juro, as recentes notícias no sector bancário, a inflação e o nível de incerteza generalizado sobre a evolução económica e política são fatores que indiciam o possível aumento do número de insolvências”, começa por explicar Cristina Sousa Dias, salvaguardando que em causa estarão empresas endividadas, de sectores que sofrem mais com a perda do poder de compra e o aumento do preço das matérias-primas.

“O número de insolvências pode ser, no entanto, mitigado pelo facto de existir muita liquidez para investimento. Ou seja, empresas que estejam em sectores com possibilidade de crescimento, que tenham algum valor intrínseco como seja marcas, carteira de clientes, equipas especializadas, tecnologia específica, podem vir a ser adquiridas por investidores evitando a insolvência ou simplesmente potenciando o crescimento. Além dos investidores operacionais que já estão no negócio, também há um conjunto de fundos com dinheiro disponível para adquirir”, esclarece a sócia da BDO.

Juristas da PwC Portugal vão trabalhar com ChatGPT
Há ainda o tópico do desenvolvimento tecnológico, que continua a fazer correr tinta. Na semana passada, a PwC encheu páginas de jornais um pouco por todo o mundo ao anunciar que introduziu um serviço de chatbot para os seus juristas através de uma parceria de doze meses com a startup de Inteligência Artificial (IA) Harvey, que é apoiada pelo OpenAI Startup Fund e cuja tecnologia é construída em ChatGPT. O acordo estabelece que cerca de quatro mil especialistas em Direito da PwC, em mais de 100 países, terão acesso para acelerar o seu trabalho de due diligence, análises contratuais, cumprimento regulatório, entre outras tarefas de assessoria. O JE apurou que a PwC Portugal também está envolvida, embora a data de início da parceria ainda não esteja definida.

“A solução de IA da Harvey marca uma grande mudança na forma como os serviços fiscais e jurídicos serão entregues e consumidos em todo o sector. O acesso à Harvey será uma mudança no jogo para as nossas pessoas e para os nossos clientes. Estou incrivelmente entusiasmado com a capacidade de resolução de problemas que será gerada pela combinação dos recursos técnicos da PwC e profundos insights de mercado da poderosa plataforma de IA da”, garantiu Carol Stubbings, responsável de ‘Tax & Legal Services’ da PwC do Reino Unido, em comunicado.

Deloitte lidera no empoderamento das mulheres
A atração e retenção de talento é outro dos temas prementes. Todavia, os desafios dos recursos humanos não se ficam por aqui, porque a igualdade de género também tem feito parte do investimento nas métricas sociais da sustentabilidade. De acordo com um estudo do Instituto CFA, citado pelo “Financial Times”, a KPMG e a PwC têm ficado para trás na promoção de mulheres à liderança de auditoria e consultoria do S&P 500. A Deloitte destaca-se com 27% de mulheres entre os seus sócios seniores, seguindo-se a EY com o maior crescimento, de 13% em 2017 para 22% em 2021. A PwC caiu para o terceiro lugar (19%) e a KPMG manteve-se com 13%.

Multidisciplinaridade em Portugal
“Last but (definitely) not least”, as firmas aguardam os desenvolvimentos da aprovação da lei que regula as Associações Públicas Profissionais, sobre a qual os juízes do Palácio Ratton deram parecer positivo. A multidisciplinaridade tem sido considerada um ataque às profissões liberais, porém há quem a veja como uma oportunidade de negócio, nomeadamente instituições públicas ou reguladores. Em Portugal, a Autoridade da Concorrência concluiu em 2019 que a liberalização das profissões jurídicas teria um impacto positivo na economia nacional de 32 milhões de euros.

Em Espanha, olhando apenas para o contexto das consultoras, até tem havido um crescimento das receitas destas empresas com o sector público. Segundo o jornal “El Economista”, o Estado espanhol foi um dos principais clientes nas Big Four no último ano, porque só entre março de 2022 e março de 2023, a PwC, a Deloitte, a KPMG e a EY assinaram contratos no valor de 110 milhões de euros, sendo que o ranking é encabeçado pela Deloitte e PwC, com 50 milhões de euros e 42,8 milhões de euros, respetivamente.

Nasser Sattar, membro da comissão executiva e responsável pela área de Advisory em Portugal da KPMG, mostra-se aliviado por “finalmente”, mais de dez anos depois de o tema ter sido suscitado no país, “tudo se estar a alinhar para que “Portugal admita a constituição e a atividade das denominadas sociedades multidisciplinares, tal como acontece na generalidade dos países europeus”.

“O que está em causa é a possibilidade de uma mesma entidade passar a poder prestar serviços de diferente natureza (por exemplo, consultoria fiscal, de gestão, financeira, imobiliária, jurídica, etc.) e/ou de qualquer pessoa poder ser sócia ou acionista de entidades que prestem aqueles serviços”, recorda ao Jornal Económico (JE). “No que respeita à atividade da KPMG, o principal efeito útil desta alteração deverá resultar da possibilidade de poder integrar na respetiva oferta, a prestação de serviços de consultoria legal, incluindo a advocacia. As sinergias entre a oferta atual da KPMG e os serviços de natureza legal, são evidentes”, assegura Nasser Sattar, que tem experiência em consultoria há mais de 30 anos.
Um assunto sobre o qual pode ler mais na caixa ao lado.


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