O norte-americano Silicon Valley Bank fecha as portas, um colapso histórico após uma corrida aos depósitos. E agora? “A História é uma velhota, que se repete sem cessar”, escreveu Eça de Queirós (1845-1900).
É irrefutável que a recente instabilidade do setor financeiro, principalmente com a queda do Silicon Valley Bank (SVB), despertou fantasmas do passado. Foi a maior queda desde a crise de 2008, que, por sua vez, também começou com o colapso de bancos de investimento como o Lehman Brothers. Resta-nos esperar que a primavera não acabe por uma andorinha morrer.
O SVB, apesar de ser pequeno no contexto dos EUA, tinha 209 mil milhões de dólares em depósitos, o equivalente ao PIB português. A sua cotação era de 267,00 dólares e colapsou em apenas 36 horas. O tropeçar do SVB abalou a economia global, pôs em causa o sistema financeiro e por ter afetado diretamente a indústria das startups, poderá desacelerar o avanço tecnológico e interromper a inovação.
Apesar da génese da queda ter sido diferente do que se passou em outras crises, deveu-se à negligência e à má gestão do próprio banco. É curioso observar que a estratégia do SVB em comprar ativos de pouco risco, como obrigações do Tesouro com maturidade a longo prazo, acabou por ser o seu calcanhar de Aquiles.
A aposta “segura” do SVB de investir em dívida pública no longo prazo, que oferecia taxas de juro mais altas, ampliou, portanto, o risco devido à falta de diversidade na carteira de ativos. Em dezembro de 2022, o SVB classificou 75% da sua dívida como “hold to maturity”, o que permitiu ao SVB mascarar os seus problemas financeiros por mais tempo.
No entanto, à medida que as taxas de juro subiam, os investidores retiravam os seus fundos. O que fez com que o investimento de capital de risco desacelerasse e as startups retirassem mais dinheiro. Por fim, a corrida em massa aos depósitos levou à falência do banco.
Estará Portugal em risco? A verdade é que o contágio já chegou à Europa: só o Stoxx 600 caiu 2,42%, logo na primeira semana, o Euro Stoxx 50 desvalorizou 3%, enquanto Milão recuou 4,03%, Madrid perdeu 3,51%, Paris cedeu 2,90% e Lisboa desvalorizou 2,15%, atenuando, de alguma forma, as perdas na Europa.
Em Portugal, a atratividade e promoção dos certificados de aforro tem levado uma parte significativa da população a recolher os seus depósitos. Cabe agora aos bancos blindarem-se de forma inteligente para sofrerem o menos possível. Sobretudo nesta altura, é importante não cometerem erros de má gestão e aprenderem, no mínimo, com os lapsos dos outros.
De noite, todos os gatos são pardos, mas muitos economistas já vieram a público alegar que seria possível ter previsto esta queda do SVB. O facto de os reguladores não terem antecipado este acontecimento deve-se, no fundo, a uma lei aprovada em 2018 que reverteu os regulamentos sobre os pequenos e médios bancos americanos. O rápido crescimento do SVB foi outro fator que o regulador Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) não teve em conta. Ora, o foco dos reguladores norte-americanos não pode ser meramente nos bancos de maior dimensão. Apesar do visionário banco de Silicon Valley ser “menor”, a sua queda fez estremecer a economia mundial.
O sistema bancário já existe desde a Idade Média e continuamos a ser surpreendidos com estes acontecimentos que nos fazem questionar os mesmos. A verdade é que já há um número significativo de bancos a demonstrarem fragilidade nesta fase. A montanha-russa financeira de março está a dar sinais que, a qualquer momento, poderá descarrilar.
“A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes.” – Winston Churchill, (1874 – 1965). Em suma, será de esperar que, tanto os bancos centrais como os governos se preparem para o que aí vem, adotando políticas acertadas para que, desta vez, seja possível haver duas sem três.
O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.



