A cidade volta a celebrar a arquitetura de portas abertas. As cidades de hoje constituem o terreno onde pessoas de todo o mundo se cruzam de formas que não encontram paralelo noutros lugares. A diversidade pode, assim, ser experimentada através das rotinas da vida diária e eventos, como manifestações ou festivais. Aliás, a cidade enquanto arquitetura é a expressão da verdadeira alma das sociedades, “sempre caracterizada pela construção de espaço habitável em forma significante”, como nos lembra o arquiteto Nuno Portas.

É este significado que importa sublinhar. Em 2019, a Agenda Temática de Investigação e Inovação dinamizada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), reconhece a Arquitetura Portuguesa como uma das áreas que mais contribui para a visibilidade do país no contexto internacional. Na construção da visão para 2030, a FCT “defende apoiar a transição das cidades portuguesas para um novo paradigma de cidade inclusiva, segura, resiliente e sustentável, no contexto europeu e global”.

Desde 2013, com o “Ano da Arquitetura Portuguesa”, que o objetivo é mostrar a arquitetura como uma marca de Portugal, melhorando a circulação de projetos e de pessoas e promovendo o emprego dos arquitetos. Porém, dez anos depois, “um em cada cinco arquitetos recebe perto ou abaixo do salário mínimo”, segundo o inquérito desenvolvido por investigadores do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa (CESOP).

É preciso ir mais além e reclamar a Arquitetura Portuguesa, através do investimento na cidade como um ativo, onde convergem os valores identitários da urbanidade, onde se faz um caminho para uma literacia arquitetónica, dando valor ao espaço que partilhamos com os outros, e onde colaboramos para promover a cidadania para a qualidade de vida.

O Open House tem sido, desde 2012, o veículo de promoção das cidades abertas em Portugal, possibilitando aos habitantes da cidade que saiam para a rua e observem em detalhe os muitos edifícios por que passam todos os dias, através das palavras de quem os projetou, e como estes contribuem para a cidade como um todo.

O conceito nasceu em 1992 pela mão da arquiteta Victoria Thornton, com a primeira iniciativa em Londres, e agora é uma iniciativa presente em 60 cidades por todo o mundo. Para a fundadora, é a oportunidade de conhecer “a arquitetura que está à volta de todos nós e faz parte do bem-estar da nossa sociedade, sendo algo que nunca aprendemos como parte do currículo escolar”.

No fim de semana passado, decorreu a 12.ª edição do Open House Lisboa, comissariada pelo coletivo Embaixada, que convidou a “olhar para as arquiteturas que nos rodeiam enquanto entidades vivas, com um antes e depois, refletindo as diferentes fases do ciclo de vida dos edifícios (…). A vitalidade urbana é feita da convivência dos diferentes momentos de um fluxo contínuo: Vazio, Construção, Edifício e Ruína. Bairro a bairro, rua a rua, cada parte contribui para um corpo em constante mutação a que chamamos cidade”. A cidade como arquitetura aberta deu a visitar mais de 50 projetos, passeios urbanos por bairros guiados por especialistas, safaris urbanos e desafios para crianças.

O último ofereceu experiências acessíveis sensoriais para pessoas cegas, com baixa visão, ou com deficiência cognitiva, a par de visitas com interpretação em língua gestual portuguesa para pessoas surdas. O compromisso com a equidade deu origem ao livro infantil “Uma casa é uma montanha é um chapéu”, nomeado na categoria de “Priorizar os lugares e as pessoas que mais precisam”, da 3ª edição dos Prémios da Nova Bauhaus Europeia (NEB).

Não percam a oportunidade de conhecer e celebrar a Arquitetura Portuguesa. Em dezembro há mais no Open House Europe.