As alterações climáticas constituem uma nova fonte de risco para a economia e o sistema financeiro e influenciam a execução dos mandatos dos Bancos Centrais e autoridades de supervisão no âmbito das suas atribuições na preservação da estabilidade financeira e da resiliência das instituições. Em termos de riscos físicos, o setor bancário nacional apresenta maior exposição a empresas vulneráveis a stress hídrico, stress térmico e incêndios.
A conclusão é do Banco de Portugal que publicou o Relatório Anual sobre a Exposição do Setor Bancário ao Risco Climático. É a primeira vez que o faz porque agora a Lei de Bases do Clima assim o exige.
“Neste relatório, analisa-se o potencial impacto dos riscos climáticos no setor bancário português e dá-se nota das principais iniciativas de supervisão prudencial desenvolvidas para promover uma maior resiliência das instituições bancárias ao longo do processo de transição climática”, lê-se no comunicado do supervisor da banca.
Os resultados apontam para uma exposição mais significativa do setor bancário nacional – através do crédito concedido – a empresas vulneráveis ao stress hídrico, ao stress térmico e a incêndios. Nestes casos verifica-se um peso do crédito superior a 90% do total, com uma maior incidência dos níveis médio e alto risco (incluindo o severo). Considerando apenas o nível de risco severo, a exposição será limitada, à exceção do stress térmico, onde atinge 20% do total.
A interação da exposição aos riscos físicos de stress hídrico (falta de água), stress térmico e incêndios com a qualidade de crédito (classes de risco) não evidencia no entanto riscos acrescidos de concentração.
O diagnóstico que o supervisor bancário faz neste relatório não se traduz ainda numa determinação de penalização do crédito concedido a empresas sediadas em zonas de mais risco climático, ou a setores mais expostos a esse risco, embora implícitamente esse risco não possa ser ignorado pelos bancos no momento de dar crédito.
Não foi dada qualquer indicação explícita, pelas entidades europeias, para os bancos penalizarem nos custos de crédito das empresas os riscos climáticos, segundo fonte próxima do processo. No entanto, os bancos, na análise de crédito que fizerem, se chegarem à conclusão que estas empresas os sujeitam a maior risco, isso pode implicitamente afetar o preço do crédito, admite a mesma fonte.
Enquanto entidade responsável pela preservação da estabilidade do sistema financeiro nacional, o Banco de Portugal, apresenta neste relatório uma análise exploratória do potencial impacto dos riscos climáticos – físicos e de transição – no sistema bancário português. Na análise os riscos físicos incidem essencialmente sobre três riscos, os de incêndio, de inundações e de subida do nível do mar.
O universo da análise do BdP abrande 50 mil empresas que têm crédito bancário e que atualmente têm maior peso no balanço dos bancos. Os dados do relatório têm como data de referencia dezembro de 2021.
A área no Banco de Portugal está entregue à vice-Governadora Clara Raposo.
A exposição do setor bancário aos riscos físicos depende da distribuição geoespacial das áreas afetadas pelos eventos de risco físico e dos ativos localizados nessas zonas. Para a análise mede-se o risco nas zonas geográficas onde essas empresas têm sede.
A exposição do setor bancário a eventos com o nível de risco mais elevado (severo) é bastante limitada, sendo apenas relevante no caso do stress térmico. “A interação da exposição do setor bancário às empresas que apresentam maior vulnerabilidade à materialização dos riscos físicos com a qualidade de crédito não evidencia riscos acrescidos de concentração”, lê-se no relatório.
Os indicadores que traduzem a exposição do setor bancário aos riscos de transição, em função do nível de emissões de GEE (Gases de Efeitos de Estufa) dos setores de atividade, apresentam uma tendência de redução no período mais recente. Estes indicadores colocam Portugal numa posição intermédia no contexto da área do euro, diz o Banco de Portugal.
Não se observa uma concentração de empréstimos a empresas com maior risco de crédito nos setores que tenderão a ser negativamente afetados pelo processo de transição climática.
“O risco de crédito médio dos setores que tenderão a ser, pela atividade desenvolvida, afetados negativamente pelo processo de transição climática é próximo, mas inferior, ao risco de crédito da carteira de empréstimos às empresas não financeiras”, segundo o Banco de Portugal. Assim, “não se observa uma concentração de empréstimos com maior risco de crédito nos setores que tenderão a ser afetados negativamente pelo processo de transição climática”.
A consideração da interação dos riscos físicos com os riscos de transição, aponta para uma maior concentração na classe de maior risco de crédito das empresas afetadas, simultaneamente, pelo risco de transição e pelos eventos de stress térmico ou stress hídrico, face ao total do crédito às empresas. No entanto, a exposição de crédito do setor bancário a estas situações é reduzida, diz o relatório.
O BdP faz a análise à exposição do crédito bancário a empresas localizadas em áreas mais vulneráveis à materialização de riscos físicos e da sua percentagem no total do crédito a empresas.
No que toca à distribuição do crédito a empresas com exposição ao risco físico (total dos níveis médio e severo) por setor de atividade é semelhante à estrutura do total do crédito às empresas. Apenas se verifica uma concentração da exposição ao setor da indústria transformadora, no caso do stress térmico nas empresas com sede em áreas mais vulneráveis.
A interação da exposição aos riscos físicos de stress hídrico, stress térmico e incêndios com a qualidade de crédito (classes de riscos) não evidencia riscos acrescidos de concentração.
O relatório conclui ainda que a composição setorial da carteira de empréstimos a empresas é mais próxima da estrutura do Valor Acrescentado Bruto em Portugal do que média da zona euro. O indicador de Intensidade carbónica corresponde ao rácio entre as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e o valor acrescentado bruto (VAB). “Em 2021, a intensidade carbónica da economia portuguesa ponderada pelos empréstimos bancários a empresas era superior à intensidade carbónica ponderada pelo VAB”, segundo o relatório.
O risco de crédito médio dos setores negativamente afetados pela transição climática (com base no setor da atividade) é próximo, mas inferior, ao risco de crédito da carteira de crédito às empresas.
Num horizonte até 2050, estima-se que as empresas venham a apresentar maiores níveis de rendibilidade, menor endividamento e menor propensão ao incumprimento nos cenários de transição para uma economia hipocarbónica, do que num cenário em que não existe uma atuação rápida no sentido de reduzir as emissões de GEE, segundo o estudo.
O Banco de Portugal participa nos trabalhos de aperfeiçoamento do modelo de supervisão prudencial do Mecanismo Único de Supervisão, com o objetivo de promover uma maior resiliência das instituições supervisionadas dada a transição climática.
Os riscos climáticos e ambientais representam, atualmente, uma prioridade prudencial. Foram definidas expetativas de supervisão para promover uma adequada identificação, quantificação e mitigação dos riscos climáticos e ambientais por parte das instituições de crédito supervisionadas. Observa-se uma atenção e progresso gradual no cumprimento destas expetativas de supervisão por parte das instituições do MUS, sendo esperada uma convergência material no futuro próximo.
Conclusões do BdP
O Banco de Portugal conclui que a transição climática (ordenada ou tardia) tem benefícios para o sistema bancário em termos de risco de crédito.
“Os custos de transição de curto-prazo são mais que compensados a longo-prazo, em termos de probabilidade de incumprimento (PD), de Loss Given Default e e perdas esperadas”, refere o relatório.
Aa empresas com maior intensidade carbónica estão particularmente expostas ao cenário de transição tardia e as mais expostas aos riscos físicos registam aumentos de Probabilidade de Incumprimento superiores e mais acentuados do que a mediana da amostra total nos cenários de transição tardia ou de políticas atuais.
Estes resultados são globalmente consistentes com os obtidos pelo BCE para a área do euro.
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