O Presidente da República vetou o pacote ‘Mais Habitação’ com duras críticas. Para Marcelo não é fácil de ver de onde virá a prometida oferta de casa para habitação com “eficácia e rapidez”. E sinaliza o sufoco de muitas famílias em face do peso dos aumentos nos juros, não vislumbrando apoios aos mais vulneráveis e jovens no acesso à habitação. O chefe de Estado tem razão quando confirma “irrealismo nos resultados projetados”. Basta ver que todos os dias, milhares de jovens correm os sites de arrendamento e venda de casas à procura de alguma oportunidade e sentem o futuro adiado.

Qualquer apartamento novo não custa menos de 200 mil euros. Para recorrerem a financiamiento, os jovens têm de ter capital próprio, no mínimo de 18 ou 20 mil euros, a que se juntam outros milhares em impostos, entre IMT e Imposto do Selo, além dos custos com registos e comissões bancárias. Mas não conseguem juntar essa quantia, ou têm de abdicar de todas as poupanças. E para arrendar o cenário não é melhor. Rendas e casas com valores incomportáveis acabam por empurrá-los para vidas em quartos e imóveis partilhados com estranhos.

O que é que aconteceu para os jovens não conseguirem sair de casa? Escolheram bons cursos, muitos até têm carreiras estabelecidas, e outros tantos recebem ajudas de familiares, mas enfrentam dificuldades para comprar casa e a expectativa de terem uma é diminuta, ou inexistente, com os preços proibitivos das casas e o pornográfico valor das rendas, nomeadamente nas grandes cidades.

A isto somam-me os efeitos da inflação e do aumento dos juros no rendimento disponível. Dificuldades que se tornam ainda mais duras para os jovens com empregos precários, salários baixos em torno dos 1.000, e que enfrentam preços das casas que não descem, o que não ajuda a que consigam ter casa própria. Os preços das casas escalam de uma forma que os salários não estão a ser capazes de acompanhar.

Também o mercado de arrendamento tem vindo a encarecer. No terceiro trimestre de 2022, era necessário 54% do rendimento familiar para pagar o arrendamento, face a 48% em 2021. Da restante fatia que sobra, acrescem outras despesas, como a alimentação, que também está mais cara, entre outras, e pouco sobra ao final do mês para viverem sem serem escravos da casa.

Não é de estranhar que haja cada vez mais jovens a entregar a casa ao banco, porque não conseguem pagar os empréstimos, ou a regressar a casa dos pais, porque não conseguem suportar a renda, caindo assim por terra qualquer aspiração de terem mais autonomia e independência.

Um arrendamento viável e a compra casa têm de deixar de ser um sonho distante para os nossos jovens, pois ninguém tem de ser escravo de pagar uma casa e não conseguir fazer mais nada.