Surgem constantemente novas tendências sobre o consumo e produção de produtos físicos, e estas influenciam a nossa forma de criar, escolher, comprar, usar, revender, reciclar e mesmo reutilizar. Uma das tendências atuais e que veio para ficar é a Economia Circular, que pode ser adotada pelas empresas e pelos consumidores, estando contudo dependente da aceitação dos clientes que podem querer ou não este modelo de negócio e comprar produtos usados ou “reaproveitados”.
Uma forma de apostar na Economia Circular é transformar produtos físicos em serviços, mais concretamente em modelos de subscrição. Desta forma, pegamos num produto e criamos um serviço com base na sua distribuição. Assim, a subscrição do produto está alinhada com um futuro eficiente e com uma visão de sustentabilidade: podemos usar um produto durante x meses, e quando não quisermos usar mais, devolvemo-lo e este será usado por outro cliente, em vez de terminar a sua vida útil.
Esta forma de consumo é já bastante popular ao nível de serviços e conteúdos digitais, no entanto, todo o movimento relacionado com a sustentabilidade ambiental e económica está a contribuir para que a tendência chegue em força ao hardware e aos produtos físicos, sejam estes consumíveis ou não consumíveis.
O modelo de subscrição, como modelo de negócio para produtos físicos, é uma peça essencial na transformação de mentalidade e para incentivar o consumidor a entrar na Economia Circular, a par dos motivos financeiros (poupança) e dos serviços de manutenção, flexibilidade, cancelamento e de reutilização, que estão normalmente associados aos modelos de subscrição.
Diria que a maioria de nós já tem subscrições mensais há algum tempo, que começaram com a entrega de revistas e jornais em casa, e que agora passaram para as plataformas de streaming e produtos digitais. O que é então uma subscrição de um produto físico? É a opção de pagar um acesso a um produto físico mensalmente (tal como os produtos e serviços digitais que já usamos), com opções claras de cancelamento, upgrades, serviços relevantes incluídos e garantias de manutenção.
Por exemplo, a startup espanhola Kleta, que permite aos seus clientes alugarem bicicletas desde 19,90€ por mês, incluindo manutenção, suporte e opções de cancelamento, é uma solução de subscrição mensal de um produto físico. Na prática podemos considerar que estes novos negócios pouco diferem dos contratos de aluguer tradicionais, mas é a experiência digital semelhante ao que a Netflix nos habituou que faz com que se opte pelo modelo de subscrição, dando especial foco à experiência do utilizador e à sua flexibilidade.
Existem três grandes tendências que justificam a aposta neste modelo de subscrição para os utilizadores e empresas, como modelo certo para incentivar a Economia Circular.
A primeira é o reconhecimento de que acumulamos produtos de que não precisamos. Segundo um estudo da WEEE Forum, com o apoio da Electrão, 52% dos portugueses admite acumular aparelhos elétricos e electrónicos e, em média, cada casa europeia tem 13 aparelhos elétricos inutilizados. Se adicionarmos à equação mobília e outros objetos que já não precisamos, esses números iriam provavelmente disparar. Do lado das empresas, estas têm incentivos por apostarem na durabilidade dos seus produtos, montar processos automáticos de recolha, manutenção e gestão de unidades usadas.
A segunda tendência é estarmos cada vez mais confortáveis com pagamentos online, pagamentos mensais e subscrições de plataformas de conteúdos e outros serviços.
Já a terceira tendência é o crescimento do mercado de artigos em segunda mão, que tem apenas como inconveniente a gestão operacional na venda desses produtos (decidir, tirar fotografias, anunciar, negociar, fechar o acordo e enviar ou entregar).
O modelo de subscrição é uma solução alinhada para dar resposta a estas três tendências. Por um lado, ajuda-nos a consumir menos produtos físicos e a escolher bem os que queremos. Pagamos para os usar de forma mensal e de acordo com a sua utilização, ao invés de pagarmos a pronto.
Quando não precisarmos mais do produto, cancelamos a sua subscrição e não fica em casa a acumular pó. Mesmo quando se decide cancelar a subscrição, o produto físico continua disponível para ser reaproveitado e entregue a outro subscritor. Assim, estamos a promover que existam menos produtos inutilizados em circulação.
Por outro lado, combatemos a chatice do mercado em segunda mão já que as próprias empresas que nos fornecem estes produtos em formato de subscrição tratam da recolha, venda e colocação num próximo cliente, chamando-lhes de produtos “ReUse” (várias expressões que têm surgido para mitigar a anterior má conotação a produtos usados e em segunda mão como “preloved”, “ReNew”, “refurbished”).
Diferente de modelos de negócio tradicionais como o de aluguer, a subscrição oferece um serviço completo, incluindo entrega e assistência técnica. Mais importante ainda, o serviço assegura que, no final de vida útil, os produtos sejam enviados para reciclagem, integrando o circuito certo e evitando que fiquem retidos nas casas, nos arquivos mortos das empresas e arrecadações.
Como exemplo, a abordagem da FINN no setor automóvel é um modelo de subscrição inspirador e pode servir como referência para as empresas que estejam a considerar mergulhar neste mundo. Ao proporcionar aos clientes a possibilidade de escolher entre diversas marcas e modelos de carros, além de um período de subscrição personalizado, a FINN coloca a conveniência e a flexibilidade nas mãos dos seus clientes.
A facilidade do processo de aprovação e entrega gratuita do veículo demonstra o compromisso da empresa em proporcionar uma experiência positiva e sem complicações. Mas há muito mais empresas a adotarem esta abordagem, noutros setores, e que estão a dar o passo na direção certa.
O caminho para adotar a Economia Circular e os modelos de subscrição depende da criatividade das empresas, que devem avaliar quais os produtos que são mais adequados para essa abordagem. Ao considerarem as vantagens financeiras e a experiência do cliente, as empresas poderão alcançar o equilíbrio entre sustentabilidade e eficiência nos seus negócios.
À medida que avançamos rumo a uma economia mais regenerativa, as subscrições mostram-se como uma tendência promissora que pode incentivar uma sociedade mais desprendida da posse, calibrando a sua visão, aceitando que um produto pode transformar-se num serviço, a bem da sua economia e do Planeta.



