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“Insegurança e incerteza” geram resistências à transformação digital nas autarquias

Nenhum dos oradores da conferência “Autarquias: Transição digital” o negou: é difícil para alguns funcionários públicos das câmaras perceberem a necessidade das aplicações móveis. É preciso “desmistificar” a tecnologia, formar e investir em cibersegurança, defendem.
21 Setembro 2023, 11h25

Clara Ramos (nome fictício) trabalha na Câmara Municipal de Abrantes e, claramente cética em relação à transformação digital no município, resistiu durante três anos às plataformas digitais que o poder local estava a instalar. Queria manter o “papel a todo o custo”, acabou por render-se às aplicações e “não quer outra coisa”, contou Paulo Rêgo, IT manager da autarquia abrantina.

A verdade é que este não é um caso isolado, mesmo com os chamados nativos digitais, aqueles que nasceram e cresceram na era do online, de acordo com os oradores da conferência “Autarquias: Transição Digital”, que decorre esta quinta-feira no Luna Hotel Turismo, em Abrantes.

Elsa Castro, vogal do conselho diretivo da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), é adepta da reengenharia de processos – onde se incluem as plataformas de interoperabilidade – embora alerte que existe outra missão que passa por “olhar para a capacitação e para a gestão de mudança”. Portanto, dar formação e prestar acompanhamento. “Os jovens adultos ainda vão muito aos serviços públicos, com a Loja do Cidadão”, afirmou.

“Porquê as resistências?”, questionou-se Fernando Reino da Costa, presidente e CEO da Unipartner. “As pessoas querem fazer coisas que faziam há 30 anos, de forma igual. Se formos ter com uma pessoa que está, por exemplo, num serviço que ainda tem papel, tem de perceber que aquilo não faz sentido e até tem de se indignar”, advertiu o gestor.

Então, como é que se combate essa tendência? Desmistificando a tecnologia através da capacitação de todos, defendeu o número um desta consultora tecnológica portuguesa. “Uma das maiores barreiras à mudança tem a ver com insegurança e incerteza no futuro. O que vou fazer? O que não vou fazer?”, explicou.

“Com o tempo também se irá resolver. Acho que é impossível parar ou atrasar a evolução”, opinou Rui Duro, country manager da Check Point em Portugal, no painel “A transição digital: Oportunidades e desafios”, moderado pelo professor académico Luís Borges Gouveia.

Rui Duro sugeriu investir na requalificação dos recursos humanos e, puxando a brasa à sua sardinha, apostar na segurança cibernética. “Temos de olhar para a cibersegurança como olhamos para os outros aspetos da nossa vida. Como antes havia só seguranças à porte dos bancos, agora os bancos têm de fazer o mesmo com cibersegurança”, comparou o especialista na área.

Na semana passada, a app “Abrantes 360” sofreu atualizações para incluir novas funcionalidades de apoio aos cidadãos, nomeadamente a possibilidade de fazer inscrições ou pagamentos das piscinas municipais ou mesmo a gestão das refeições escolares dos alunos do pré-escolar e do 1º ciclo.

Elsa Castro também fez referência à digitalização das piscinas municipais, aconselhando os promotores da mudança a envolver todos os funcionários, o pessoal da tesouraria, os alunos e banhistas, entre outros stakeholders, nomeadamente os dirigentes políticos. A seu ver, é importante “trazer as pessoas para o processo desde o início, tentando perceber as suas necessidades”, lançando questões como: onde é que esta plataforma está a ser útil ou, pelo contrário, difícil de trabalhar?

A conferência “Autarquias: Transição Digital” foi organizada pelo Tagusvalley, Câmars Municipal de Abrantes, Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (Instituto Politécnico de Tomar) e patrocinado pela Dell Technologies e pela Pamafe, do grupo Ricoh.

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