Quase todos os partidos desejam eleições, mas nenhum deles o assumirá. Faz lembrar os dias de adolescência quando o desejo insuportável e o medo de o confessar se juntavam num cocktail explosivo. E assim vai o país, com gente que deseja sem o poder dizer, gente que manobra para que tudo aconteça sem que alguém possa afirmar que a culpa da ousadia é sua.
Montenegro recusou, e muito bem, abrir as portas de sua casa a André Ventura. No entanto, sabe que dificilmente poderá continuar a viver sozinho. Precisa de ter mais votos e mais deputados para governar a casa, tal como as coisas estão limitar-se-á a poder comer atum e salsichas até que a despensa nem isso tenha. Não é futuro que se deseje.
Pedro Nuno vive no sonho de uma república como as de Coimbra. Já decorou os quartos a pensar em Mariana Mortágua, Rui Tavares e Paulo Raimundo. Providenciou até uma biblioteca onde estão representadas todas as internacionais – de Marx a Gramsci, de Rosa do Luxemburgo a Trotsky, de Lenine a Mandel, não faltará leitura.
Ventura comprou uma nova casa. O gato António saiu de um apartamento onde tinha a areia ao lado da sanita dos donos para uma de múltiplas divisões onde pode finalmente gozar a sua privacidade. O senhorio reservou uma ala inteira para o que acredita que há de vir. Há fotografias de Passos Coelho nesse lugar reservado ao único que tem a chave.
Todos desejam que a casa fique mais a seu jeito. E todos acreditam que aquilo que podem ganhar é maior do que aquilo que arriscam. Talvez Montenegro seja o que mais terá a perder. A não ser que encontre um pretexto para dar o dito pelo não dito e se alie com aquele cujo nome não convém pronunciar. Pedro Nuno precisa de ganhar as Europeias e de conseguir aproximar-se de uma maioria de esquerda nas próximas legislativas. Já o Chega precisa de reforçar a sua votação e aproximar-se da vitória, o que levaria à implosão do atual PSD e ao regresso de Passos Coelho.
Os tempos mudaram. O bipartidarismo deu lugar a uma outra coisa. E nessa outra coisa serão inevitáveis alianças. Que alianças é a única pergunta que conta. Mas para uma dança a dois, com paixão assolapada ou frieza glacial, uns e outros terão de querer calçar os sapatinhos de foxtrot e acreditar que o amor (pelo poder) tudo pode.



