A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) convidou todas as comissões de trabalhadores das empresas públicas de transportes para uma reunião nesta quarta-feira, 5 de junho. O encontro visa fazer o balanço do atual estado das empresas e debater as medidas necessários para a resolução dos seus problemas. Os sindicalistas lançam ainda criticas ao Executivo de António Costa: “Não basta os ministros pedirem desculpas para que os problemas se solucionem.”
“São precisas medidas concretas para responder aos problemas de agora, tal como há muito temos defendido e a situação nos tem dado razão”, afirmou ao Jornal Económico José Manuel Oliveira, coordenador da Fectrans, dando conta que esta federação sindical endereçou um convite a todas as comissões de trabalhadores das nove empresas públicas de transportes para uma reunião no próximo dia 5 de junho, pelas 14h30.
De acordo com a Fectrans, o objetivo da reunião é fazer o balanço do atual estado de cada uma das empresas relativamente à prestação de serviço público, “dos problemas que todos os dias se agravam” e debater as medidas concretas que são necessárias, num encontro que servirá ainda para discutir “como é que as organizações representativas dos trabalhadores devem intervir na defesa de um serviço público de qualidade e universal que garanta os direitos de utentes e defenda melhor as condições laborais dos trabalhadores”.
Segundo José Manuel Oliveira, as medidas passam pelo reforço de trabalhadores nestas empresas, além de investimento no presente e de perspetivar para o futuro investimentos que visem, por exemplo, a recuperação de equipamentos. “Queremos manter o tema na ordem do dia numa lógica que sejam garantidos serviços públicos de qualidade e seguros”, frisa o sindicalista
Recorde-se que em meados de maio a Fectrans tinha já avançado que a falta de pessoal é o principal motivo por detrás dos problemas e frisara que a redução do défice não pode ser feita à custa dos transportes públicos.
O alerta foi realçado num comunicado da federação sindical na sequência das recentes supressões de travessias na Soflusa, que a administração da empresa justificou com “constrangimentos laborais”. Um argumento que, segundo a Fectrans, considerou uma “tentativa descarada” de implicar trabalhadores numa “situação há muito identificada”.
Segundo a Fectrans, continuam a faltar trabalhadores na EMEF e na CP, o que consequentemente se reflete na “falta de material circulante”, referindo-se ao anúncio de 15 de maio da administração da CP, que vai cortar 60 comboios na linha de Sintra devido a “excesso de imobilizações”.
“Tendo em conta que não foi por falta de avisos, feitos ao longo de vários anos pelos representantes dos trabalhadores, a Fectrans questiona-se do porquê de não ter sido solucionada a falta de pessoal neste sector estratégico: será que querem criar as condições para justificar a retomada dos projetos privatizadores?”, questionou então a Fectrans.
Esta estrutura sindical deixou já um aviso há cerca de 15 dias: “Se o problema não tiver solução rápida, à medida que vamos entrando pelo verão, a situação agravar-se-á”, lembra José Manuel Oliveira, reiterando que “a redução do défice à custa do futuro do serviço público de transportes e em detrimento dos utentes não deve ser motivo de orgulho para ninguém”.
Desde 10 de maio que as ligações fluviais entre Barreiro e Lisboa têm registado várias perturbações devido à falta de mestres, com várias carreiras a serem suprimidas. Estas perturbações levaram na passada sexta-feira passageiros da Soflusa a demonstrarem o seu descontentamento pela supressão de embarcações ao longo da manhã. De acordo com a Polícia Marítima, tratou-se da manifestação de um “descontentamento mais notório”, com alguns vidros partidos e exaltação.
O cenário piorou com a paralisação parcial de dois dias, que ocorreu há duas semanas com a greve às horas extraordinárias, que se iniciou no dia 23 de maio e se deve prolongar até ao final do ano.
Sobre os constrangimentos na Transtejo e na Soflusa, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, defendeu na semana passada que “85% das supressões da Soflusa, ao longo deste ano, foram pela existência de greves”.
Ministo pede desculpas
O Governo pediu na passada sexta-feira, 31 de maio, desculpa aos utentes afetados pelas supressões nos transportes públicos urbanos e suburbanos, avançando que está a trabalhar num plano para recuperar a CP – Comboios de Portugal para níveis que o povo “legitimamente exige”.
O ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, anunciou que o “plano pretende, antes de mais, atuar sobre o curto prazo, isto é, travar a degradação de material circulante através do aumento da capacidade de resposta oficinal da empresa e do recrutamento de trabalhadores para o efeito”.
Falando no Parlamento, no âmbito de um debate de urgência sobre as supressões nos transportes públicos urbanos e suburbanos, requerido pelo BE, o governante endereçou um “pedido de desculpas às pessoas cujo dia-a-dia é afetado pelas supressões nos transportes” e centrou o seu discurso na CP, admitindo falhas nas linhas ferroviárias.
O governante afirmou ainda que em algumas linhas as “reservas são insuficientes”, pelo que há “poucos comboios de substituição prontos a entrar quando há falhas”, assim como existe “material circulante envelhecido”, que “precisa de paragens maiores de manutenção e de reparação”. E avançou que está a trabalhar “com o Ministério da Economia para planear novos investimentos que permitam recuperar capacidades industriais, tecnológicas e empresariais que o setor ferroviário já teve no passado” e que o Governo quer que volte “a ter no futuro”.
Já na véspera, a 30 de maio, no discurso que proferiu perante a Comissão Política Nacional do PS, que se reuniu em Lisboa, António Costa disse que são necessárias respostas imediatas em serviços públicos que funcionam de forma “deficiente” e “inaceitável”.
Falando sobre as prioridades até ao final da presente legislatura, o líder socialista e primeiro-ministro começou por advertir que “o trabalho não está acabado” e que há problemas urgentes a resolver.
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