Hannah Arendt causou polémica quando defendeu a ideia de banalidade do mal, no seu livro “Eichmann em Jerusalém”. O Holocausto não foi levado a cabo por seres demoníacos, argumentava, mas sim por homens normais, pais de família que ao domingo iam à missa e no dia seguinte enviavam mulheres e crianças para as câmaras de gás. A explicação de Arendt é que, numa sociedade massificada, muitas pessoas deixam de ser capazes de fazer julgamentos morais e de distinguir o Bem e o Mal. E quando tudo passa a ser relativo, até as maiores atrocidades podem ser justificadas com um alegado dever de obediência, interesse nacional, zelo profissional ou mero comodismo.

Diria que não é possível dissociar este conceito de outro, o de “ditadura do relativismo”, de que falava Bento XVI. Ambos não serão alheios ao desencanto generalizado a que assistimos no Ocidente em relação aos governos, ideologias e instituições. Sem valores, certezas ou referências, as nossas sociedades arriscam caminhar para um deserto ético e espiritual, sem alma, criando as condições para que surjam perigosos radicalismos e fundamentalismos. E de pouco serve apontar o dedo às elites: o “façam-nos acreditar” que João Miguel Tavares lançou nas comemorações do 10 de junho tem razão de ser, mas os políticos não são melhores nem piores do que quem os elege.

Enquanto isso, o Mal torna-se banal, como vemos em Itália: entre outras medidas contra a imigração ilegal, o governo de Salvini quer aplicar coimas pesadas às embarcações que resgatem migrantes no alto mar. Contrariando todas as convenções escritas e não escritas, Salvini quer condenar à morte centenas de pessoas indefesas cujo único ‘crime’ é tentarem escapar à guerra e à miséria crónicas nos seus países. É como se existissem duas categorias de seres humanos: por um lado, os que merecem ser socorridos pois têm visto no passaporte; do outro, os que devem ser abandonados à sua sorte.

Perante esta lei desumana, que até há pouco tempo seria impensável num país europeu, importa que nos questionemos: o que farão os comandantes de navios quando encontrarem balsas à deriva com dezenas de pessoas a bordo? O que farão os polícias italianos quando tiverem de aplicar essas coimas? O que farão os juízes se tiverem de se pronunciar? Não sabemos. Mas das escolhas desses homens e mulheres pode depender a sobrevivência da alma da Europa.