Como era provável, Boris Johnson ganhou as eleições no Reino Unido, embora por uma maioria que não era esperada nem pelo próprio. Os trabalhistas tiveram a sua pior derrota desde a Segunda Guerra Mundial, o que coloca Corbyn não com um mas com os dois pés fora da liderança dos trabalhistas, que o mesmo se recusa a fazer já, adiando para a primavera para que o partido possa refletir e mudar de linha e liderança – o que é adequado, pois como me foi explicado um dia, a Política é como as cobras, vem a primavera, muda a pele e pronto!

Corbyn atravessa uma fase de negação: depois de ter resistido a reconhecer e lamentar o antissemitismo de franjas importantes dos Trabalhistas, recusa-se agora a reconhecer o seu triplo erro: o seu programa eleitoral era demasiado à esquerda e despesista, uma “mistura incontinente de políticas” como o classificou Len McCluskey; a sua posição sobre o Brexit era dúbia, nas eleições em que o slogan que deu a vitória aos conservadores foi “get Brexit done”; e ignorou as zonas tradicionalmente trabalhistas, que se sentiram desprezadas – dizia a Bloomberg que ele conseguiu transformar as eleições do Brexit num referendo a si próprio.

Boris Johnson é uma cobra velha. O homem que nestes últimos tempos mais dividiu a Grã-Bretanha, incluindo o seu próprio partido, que afrontou o Parlamento e confundiu a Rainha, vem agora, na vitória, defender que já chega de divisões no país e que está na hora de os britânicos se unirem para enfrentar os desafios que têm pela frente – com ele à cabeça, claro, e quando o mais importante é ele próprio. Ao mesmo tempo, anuncia grandes projetos no interior e norte do Reino, bastião trabalhista onde conseguiu vitórias históricas, pois quer segurar um eleitorado que se sente órfão e se virou para ele em desespero.

Isto sem se esquecer de avisar que vai acertar contas com o Tribunal Supremo, os juízes que ousaram tomar posição contra ele, e reformar o Parlamento. Em termos económicos, os primeiros efeitos sentiram-se logo: uma subida importante das cotações das empresas britânicas na bolsa e uma valorização significativa da libra. Que podemos esperar que resulte destas eleições?

Em primeiro lugar, o resultado das eleições foi positivo para o Reino Unido e para a União: o pior cenário era uma vitória tangencial, que poria Johnson refém de Rees-Mogg e do European Research Group. Em segundo lugar, dá-lhe mais capacidade negocial e mais flexibilidade para fechar um acordo comercial com a UE. Em terceiro lugar, tem agora espaço para definir a sua agenda, esgotada que está aquela que manteve e pela qual foi eleito. Resta ver o que o homem que até agora governou por slogans vai fazer e como; uma questão de detalhes para quem nunca quis saber de detalhes. É que as coisas só falham nos detalhes.