Temo que esteja a alastrar-se uma epidemia de amnésia na classe política mundial. Já são muitos a padecer de “memória curta”, uma efermidade que resulta numa população descontente, más decisões e acusações vazias à oposição – apenas para nomear alguns dos seus piores sintomas.
Dizer “isto” hoje e “aquilo” amanhã acontece tantas vezes na política, que deixamos de nos dar conta. Isso é grave porque é aí que começa a assombrar-nos um grande inimigo da democracia: o comodismo.
A presidente Dilma Rousseff anda a fazer malabarismos desde que estourou o caso Petrobras. O filme vem-se arrastanto desde o início do ano, como uma novela da Globo, com episódios cada vez mais sombrios. Tão sombrios, que se fossem ficção teriam críticas devastadoras pela falta de verosimilhança.
A compra suspeita de uma refinaria de petróleo, nos EUA, foi o gatilho do início das investigações. Em 2006 a Petrobras pagou 360 milhões de dólares por 50% da refinaria de Pasadena, quando um ano antes uma empresa belga tinha pago pouco mais de 42 milhões pela sua totalidade. Nunca fui genial a matemática mas acho que para a maior empresa brasileira, entre as doze maiores do mundo de acordo com a revista Forbes, este é um erro de cálculo, no mínimo, duvidoso.
Para Dilma, a disparidade dos valores em nada indicava irregularidades na empresa estatal. No máximo, a presidente admitia possíveis erros administrativos. Importante será referir que à data da negociação (2006), Dilma Rousseff era, além de ministra da Casa Civil do governo de Lula da Silva, presidente do Conselho de Administração da Petrobras.
Infelizmente para ela, o caso não foi abafado. Pior, à medida que se vai cavando, mais pormenores obscenos emergem.
Se há alguns meses, dizer que este seria o maior escândalo de corrupção da história do país soava a exagero, hoje o “Petrolão” está a revelar-se no Watergate brasileiro.
De tal maneira, que escrever sobre o caso Petrobras, é não saber por onde começar. Ainda a procissão vai no adro e já não temos dedos nas mãos para contar os envolvidos na teia da corrupção. E o governo está na mira das investigações.
Na quinta-feira antes do segundo turno das eleições presidenciais, rebentou a bomba das bombas: Dilma e Lula sabiam do esquema! A reportagem da revista Veja, que citava Alberto Youseff – réu confesso no processo – como fonte, assustou os petistas, mas como se viu nas urnas, não fez mossa. Lá está o comodismo a assombrar a democracia.
Apesar de não haver certezas de que Dilma tivesse conhecimento sobre o que se passava nos bastidores da Petrobras, paira sobre ela uma nuvem escura.
Talvez por isso, durante a cimeira do G20, Dilma tenha vestido a pele de justiceira e declarado que este é o primeiro escândalo a ser investigado no Brasil e que, por isso, será “capaz de mudar para sempre as relações entre a sociedade brasileira, o Estado e as empresas privadas”, em relação à impunidade. Do outro lado do Mundo, tomou para si o mérito da investigação, mas pôs-me a pensar.
Será que me está a escapar alguma coisa? Afinal, não foram os aliados de Dilma que criaram impecilhos às comissões de inquérito no Congresso para investigar a Petrobras? E não foi Dilma que acusou de má-fé a oposição, que segundo ela manipulou o caso para enfraquecer a sua recandidatura?
Estranho. Se acordasse de um coma no dia em que Dilma falou na Austrália, teria a certeza de que foi ela quem descobriu o esquema de corrupção e chamou os responsáveis à justiça.
Será Dilma mais uma vítima da epidemia da “memória curta”? Espero que tenha sido só jet lag.
Juliana Pereira Martins
Jornalista



