Em finais de março de 2010, o então presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou ao Financial Times que tinha chegado a hora de a Europa concretizar o que podia fazer para ajudar a Grécia e disse acreditar que a Alemanha daria luz verde a um plano europeu para avançar com essa mesma ajuda. Deu-se então a intervenção da “Europa” na Grécia.
Passados quase cinco anos, quando se estima uma quebra superior a 20% do PIB grego entre finais de 2009 e finais de 2014, quando se estima um aumento do desemprego de um valor de cerca de 10% para mais de 25% entre os mesmo finais de 2009 e 2014, quando dezenas de milhares de milhões de euros foram pagos a bancos estrangeiros pela Grécia ao abrigo do acordo do resgate soberano estabelecido em 2010 secando por completo qualquer capacidade de investimento interna, quando filas intermináveis de sem abrigo inundam as ruas de Atenas, quando o caos e a anarquia ameaçam instalar-se no berço da democracia mundial, quando a Zona Euro entrou como um todo em deflação tornando absolutamente impossível fazer face às dívidas soberanas e privadas que aprisionam Estados, empresas e famílias, o mesmo senhor afirma que existe o risco que os outros países – leia-se os restantes membros da Zona Euro – desistam da Grécia.
No entanto, segundo José Manuel Durão Barroso existe uma “melhor maneira de evitar isso”: trata-se de a “Grécia cumprir os seus compromissos”. Ou, por outras palavras, a Grécia continuar a trilhar um caminho de destruição económica e social, servindo os mercados financeiros, até ao derradeiro momento do seu aniquilamento total.
Mas José Manuel Durão Barroso também afirmou, esta semana, que o euro irá sobreviver à possível saída da Grécia da Zona Euro, deixando-me com as seguintes questões em mente: será que a Grécia, ou qualquer outro país da Zona Euro, poderá sobreviver enquanto entidade solvente e sustentável dentro da Zona Euro? E existirá sobrevivência enquanto entidade solvente e sustentável para qualquer entidade que se atreva a sair da Zona Euro?
Talvez por alguma tenebrosa associação de ideias, recordei-me do single “Hotel California” dos Eagles, lançado em fevereiro de 1977.
Visualizei a recente entrada da Lituânia e as dúvidas que muitos dos seus habitantes deverão ter tido se estariam a entrar no paraíso ou no inferno. Visualizei a forma como a Lituânia se terá cruzado no lobby com a Grécia enquanto esta última estava a tentar desesperadamente sair. Visualizei a troca de olhares entre a Grécia e a Lituânia, os primeiros vazios e ausentes e os segundos apavorados pelo que acabavam de ver. Por fim, ouvi as palavras ditas à Grécia pelo “concièrge” Barroso, tal como a Lituânia ouviu antes da porta que dá entrada para o salão nobre se fechar violentamente nas suas costas: “Estamos programados para receber, você pode dar entrada a qualquer momento que queira, mas nunca nos poderá deixar”. E o diabo voltou a gritar de alegria!
Joao Gil Pedreira
Partner da Bridges Advisors



