Se perguntarmos a uma criança portuguesa o que mais se parece com a palavra “não”, se é “oxi” ou “nai”, ela dirá, muito provavelmente, que é “nai”. E o “Sim” tem uma entoação positiva, muito próxima do som de “oxi”. Pergunta-se à criança: “Queres um doce, oxi ou nai?”. Ela dirá, por instinto da língua portuguesa, que sim, “oxi”, claro que quer o doce. “Queres ficar de castigo? Oxi ou nai?”, pergunta-se também, ao que ela gritará “Nai!”, obviamente que não quer ficar de castigo.

Pois, foi isto que aconteceu na Grécia. Algo que até uma criança portuguesa compreende: o “sim” ganhou o referendo do acordo com a UE. O então ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, no entanto, não percebeu e achou que o “não” é que tinha sido o mais votado. Quando nessa mesma noite encontrou o primeiro-ministro Alex Tsipras, compreendeu que, afinal, o “sim” é que vencera. Varoufakis demitiu-se e, depois, criticou o nosso primeiro-ministro por, tal como uma criança portuguesa, saber mais da língua grego do que ele. Pedro Passos Coelho sabia que o “oxi” à portuguesa, ou seja, o “sim”, era a única solução para evitar a crise na Europa. Tsipras também estava à espera que o “sim” vencesse e, uma vez conhecido o resultado, agiu em conformidade e foi a Bruxelas negociar o esse “sim”. Após as 17 horas de negociações, diz-se que foi alcançado um acordo. A palavra “acordo”, em grego, é também muito interessante: diz-se “sinfonia”. É descrita em alguns dicionários como de origem italiana, mas isso é um erro. É grega e significa, tal como numa sinfonia musical, harmonia, acordo, bons sons tocados ao mesmo tempo. Como todos sabemos, apesar de ter sido anunciado uma “sinfonia” grega, isso é algo que não está em harmonia com o que se vê na Europa. A falta de solidariedade, transparência, as suspeitas da falência do projeto comum, a prepotência de argumentos nacionalistas, os avanços e os recuos, não estão a ajudar a produzir uma boa “sinfonia” nesta Europa unida.

Há dias, nos comentários na TVI, o ex-líder do PSD e putativo candidato a presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, explicou: “A Europa nunca foi um projeto económico, foi um projeto político. Se fosse um projeto económico não tinha nascido. A Europa nasceu para fazer a paz onde havia guerra. A Europa nasceu para pôr a Alemanha e a França no mesmo barco. A Alemanha juntou países que não estavam em situação económica, em teoria, para poderem entrar, em sucessivos alargamentos que foram feitos por razões políticas. Portugal entrou por razões políticas, a Espanha também, e a Grécia então foi por enormes razões políticas”. Ele tem razão. A ideia da União Europeia surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha estava dividida entre o Oeste e Leste. De um lado o regime capitalista, alinhado com a NATO e os EUA. Do outro lado, a Alemanha do Pacto de Varsóvia e satélite da URSS. Foi nessa altura que se percebeu uma coisa: a Alemanha dificilmente conseguiria unir-se enquanto não houvesse sinais de unidade no resto da Europa. Foi necessário dar vários passos. Isso passou pela consolidação da NATO, pela entrada do Reino Unido no Mercado Comum, pelo fim da ditadura em Portugal e Espanha, o fim do Império português em África – de modo a podermos ser absorvidos pela salvação da Europa unida -, na entrada da Grécia e, finalmente, em 1986, a entrada de Portugal e Espanha. Apenas três anos depois da nossa entrada na CEE, a Alemanha viu cair o muro de Berlim. E uniu-se no ano seguinte, 1990. Depois veio a moeda comum, o projeto económico. Mas, sem grande “sinfonia”. A Europa tem como hino, o Hino da Alegria, da nona sinfonia de Beethoven. É uma composição muito bonita, mas não deixa também de ser de origem alemã. Oxalá houvesse mais “sinfonia” na Europa. E é isto que a Alemanha tem de perceber.

 

Frederico Duarte Carvalho

Jornalista e escritor