“Foi Marcelo que andou a passear-se na campanha com uma sandes de queijo e uma bolacha Maria e a dizer que aquele era o seu almoço”. E o resultado está à vista, afirma a deputada do PS e apoiante de Sampaio da Nóvoa, Gabriela Canavilhas. Todos os candidatos moldaram o seu discurso e a sua postura em função da de Marcelo.
O comportamento de todos os candidatos à Presidência da República revela terem todos eles a necessária ética republicana?
Deveriam ter. É difícil fazer uma leitura valorativa dos vários candidatos à Presidência da mesma forma. Claramente, há aqui diferenças de patamar entre os candidatos e, não querendo ser injusta, penso que é perfeitamente claro para os eleitores: há um conjunto residual de candidatos que não estão na mesma liga e que terão as suas razões no quadro constitucional para se candidatarem, que utilizam argumentos lógicos na sua própria lógica mas que, de certa maneira, se afastam daquilo que são os padrões a que nos habituámos a ver, naquilo que são as tais lógicas de um candidato presidencial, e dentro dos parâmetros que nos habituámos a reconhecer. Sem evidentemente retirar a legitimidade a esses candidatos.
Quanto aos que estão no primeiro patamar e que concorrem efetivamente ao cargo, e que são três ou quatro, diria que essa lógica republicana e princípios republicanos estão patentes. Talvez discuta um pouco a postura de Paulo de Morais, na medida em que as acusações permanentes em relação à corrupção precisam de mais substância e de comprovativo, e a lógica e ética republicana também se fundamenta no Estado de Direito. E alguém que tem o Estado de Direito como baluarte e grande bandeira, nomeadamente nas matérias de transparência e corrupção, não pode passar a vida a ofender os grandes órgãos de soberania, nomeadamente a Assembleia da República, onde todos são intitulados de corruptos. Esta atitude não faz muito pela democracia, a qual precisa dos agentes políticos. A democracia faz-se na sua diversidade e quando os agentes políticos são descredibilizados face à opinião pública e são desvalorizados, é a própria democracia que se desvaloriza. Quando vamos apontar falhas com aquela gravidade que a corrupção comporta, é preciso estar bem munido em termos de argumentação. Um candidato à Presidência não pode fazê-lo sem estar munido de toda essa argumentação.
Nas presidenciais os debates entre candidatos estão a ser vistos para discutir ideias ou para avaliar o carácter dos candidatos? Este modelo está, ou não, a gerar interesse entre o eleitorado?
Somos um país de contradições. Queixamo-nos, e bem, na demora da formação do Governo, na demora das decisões do PR Cavaco Silva relativamente à solução governativa, que entrou demasiado no tempo das Presidenciais e que retirou a atenção dos eleitores para a temática das Presidenciais. Isso é verdade. Diz-se ainda que condicionou o espaço dos eleitores e cidadãos portugueses para o pensamento político e a reflexão relativamente às Presidenciais. Por outro lado, quando começa o tempo das Presidenciais queixamo-nos de que há debates a mais e sem substância. Há contradição.
Quanto ao conteúdo dos debates?
Sou favorável aos debates. Não há debates a mais, até porque estava a faltar o espaço para conhecermos os candidatos. Havia um candidato que estava claramente privilegiado em relação aos outros. Esse teve espaço televisivo durante décadas e estava claramente em vantagem. E é justo que houvesse agora um espaço de debate, nem que fosse por exagero, que houvesse um espaço mediático que procurasse equilibrar um pouco e trazer visibilidade televisiva aos outros candidatos.
Talvez pela nossa tradição europeia e à francesa, em particular, temos da política uma postura não só bastante institucional, mas formal. Se pensarmos nos países anglo-saxónicos concluímos que estes têm uma relação com a política bem mais descontraída e bastante mais aberta. De repente, nestas duas semanas de debates fomos confrontados, talvez devido ao patamar mais baixo a que não estávamos habituados dos candidatos presidenciais, e porque os tempos mudam e o país também se ajusta a outras dinâmicas e a outras linguagens, o que é certo é que, nestas duas últimas semanas, fomos confrontados com um cruzamento entre e que é o habitual discurso tradicional europeu e a tradição portuguesa de fazer política, com algum abrandamento do formalismo que é mais comum em outros países, caso dos anglo saxónicos.
E, de alguma maneira, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa é o símbolo dessa postura e não digo como crítica negativa, mas constatando. É uma pessoa descontraída, bem disposta e que traz o discurso político para o patamar do “tu cá, tu lá”. Penso que ele foi um dos responsáveis por trazer e por aproximar o discurso político dos debates para esse cruzamento entre a tradição europeia e a tradição anglo-saxónica. E de certa maneira todos os candidatos se aproximaram dessa nova abordagem que Marcelo trouxe. Foi ele que, na campanha, andou a passear-se com uma sandes de queijo e uma bolacha Maria a dizer que era o seu almoço. Estes debates moldaram-se à sua postura.
A nível de conteúdo, temos de ver que houve muitos candidatos cujos objetivos eram mais pessoais e que se enquadravam na tal II Divisão. Isto levou a que muitos debates fossem pouco interessantes do ponto de vista programático e de conteúdo. Quanto aos dois ou três candidatos que se encontram em melhores condições para disputarem o lugar de PR, penso que o objetivo foi subir a fasquia e teriam ido mais longe no conteúdo e nas ideias, se não se tivessem perdido tempo com alguma banalização do “tu cá, tu lá”, protagonizado por Marcelo Rebelo de Sousa, a par de algum insulto que vários candidatos usaram.
O eleitorado português não está a sofrer o input do sul da Europa e onde se está a dar menos importância aos partidos políticos a favor das iniciativas dos cidadãos? Este tipo de programas não está a tirar protagonismo aos agentes políticos tradicionais?
A verdade é que as eleições legislativas mostraram o contrário. Houve uma altura em que se pensou que sim e que pudessem atingir o eleitorado de uma forma mais forte mas, na realidade, não foi assim. Se os partidos ou os agentes políticos vêm de fora dos sistemas mais tradicionais aparentam ter alguma intervenção mais interessante, a verdade é que os eleitores são mais conservadores na altura de escolher o seu voto, e têm-no revelado na forma como votam.
Há um outro ponto que gostava de refletir. A verdade é que o sistema político precisa de renovação e ciclicamente renova-se. Faz parte da sua lógica, não é preciso a introdução exógena de fatores de renovação porque naturalmente se renova. E essa renovação passa pela introdução de novas figuras e personalidades e que juntam aos partidos ou que trazem um ar fresco, uma nova postura, uma nova visão ou para dentro dos partidos, ou para fora dos partidos. O que acontece é que os partidos gostam muito de trazer independentes para as suas listas e independentes para as suas frentes de batalha. E existe a ideia de que a intervenção na sociedade civil é algo que é considerado um trunfo para as várias forças partidárias. Mas também é verdade que, quando surgem independentes que não estão controlados pelas forças políticas e partidárias, nem sempre são bem-vindos. E há um cerrar de fileiras do ponto de vista dos partidos que impede que vejam com muitos bons olhos a chegada desses elementos estranhos. Faço essa leitura em relação ao Sampaio da Nóvoa e em relação a outros casos.
Tenho visto também o sistema partidário, no que respeita às legislativas, o interesse com que os independentes são acolhidos nas forças partidárias, o interesse com que eles são simbolizados como capacidade dos partidos irem buscar à sociedade civil sangue novo e a forma rápida como são integrados e transformados na amálgama dos partidos quando deixam de ser novidade. A máquina trituradora – que são os partidos – tem esse efeito!
Penso que Sampaio da Nóvoa é um nome fora dos partidos, embora tenha, ao longo da sua vida, uma postura e um discurso político, e isto porque a reflexão cívica também se faz fora dos partidos. Tenho visto com algum sorriso, graça e sarcasmo a forma como outros candidatos, inclusivamente até dentro do nosso próprio Partido Socialista, mas sobretudo Marcelo Rebelo de Sousa, têm apontado a esta personalidade que vem de fora o pecado de vir de fora e quantas vezes os ouvimos falar sobre a necessidade do cenário político se regenerar.
Queremos renovação ou não queremos renovação? E quando esta aparece é posta à margem. Parece que é o “clube do Bolinha”, que está fechado e onde só há lugar para os mesmos.
Os candidatos, quando arrancaram, pareciam não querer ter apoios partidários por detrás, ou então não lhe foi dado esse apoio. O candidato MRS não queria apoio, tenta afastar-se do líder do maior partido da oposição e diz que o apoio do partido não é tóxico. Também do lado do PS, só esta semana é que o líder e o atual PM veio afirmar que o partido tem dois candidatos e deixa a escolha ao livre arbítrio dos simpatizantes do PS, o que pode revelar fragilidades internas e revelar outros interesses. À esquerda, há vários candidatos e dois principais. Esta estratégia não é dar munições ao candidato Marcelo?
É a primeira vez que isto acontece nas presidenciais. Parece que os partidos “queimam” ou parece que eles “queimam” os candidatos. Direi que esta situação é fruto de circunstâncias específicas. À direita, temos o facto de o PSD/CDS ter deixado uma marca muito negativa na ampla latitude do eleitorado que entra pelo centro e que é o eleitorado de Marcelo Rebelo de Sousa e que este quer consolidar. A única forma de chegar ao centro é descolar do PSD/CDS. Por outro lado, sabemos bem que o próprio PSD nunca achou muita graça em ter o MRS como seu candidato e não esqueçamos que foi dito (está escrito) pelo próprio Pedro Passos Coelho que o perfil do candidato que não queria seria o perfil de um catavento mediático, e que MRS assumiu que era o próprio. Não sou eu que o digo, mas o próprio MRS que assumiu que o tema se referia a ele.
Não há aqui uma relação muito próxima e direta entre o PSD/CDS e MRS. No entanto, apesar de não haver, não tenhamos dúvidas: Marcelo Rebelo de Sousa tem o pensamento político e tem feito a defesa de todas as políticas que o anterior Governo levou a cabo. Não tenhamos dúvidas de que MRS é o candidato da continuidade do anterior Governo, é a continuidade de Cavaco Silva. Marcelo Rebelo de Sousa é o candidato da direita portuguesa, apesar dos desconfortos de Passos Coelho e apesar do desconforto que Marcelo Rebelo de Sousa sabe que o eleitorado de centro sente à governação anterior.
E quanto à esquerda?
O PS foi vítima de um prolongamento da legislatura anterior, que entra quase no tempo das presidenciais. Foi tão próximo o momento eleitoral das legislativas que não deixou espaço para que o PS, com calma, fizesse o seu trabalho nas legislativas e preparasse as suas bases e as orientações relativamente ao candidato para a Presidência da República. Não houve tempo para isso e, portanto, o candidato que tinha a motivação para se auto propor, Sampaio da Nóvoa, por ser menos conhecido (do grande público) teve de avançar antes das legislativas. E, ao avançar, não pode contar com o apoio de partidos que estavam numa disputa muito complicada (legislativas de 2015).
Quando o PS estava em condições muito próximas de poder apoiar Sampaio da Nóvoa surgiu a candidatura de Maria de Belém, uma ex-presidente do PS e claramente o Partido Socialista ficou sem condições.
Esta candidatura veio dividir?
O que posso dizer – em nome pessoal – é que lamento que a candidatura de Maria de Belém tivesse surgido naquela altura e, pelo maior respeito que tenho por Maria de Belém, lamento. Veio prejudicar a unidade dentro do Partido Socialista para poder derrotar Marcelo Rebelo de Sousa, quando havia uma candidatura que poderia representar o partido. Há ainda quem diga, mas não sou competente para fazer essas análises, que Maria de Belém também retira votos a Marcelo Rebelo de Sousa e portanto divide a direita.
As candidaturas que estão mais à esquerda do PS significam divisão de votos ou mais do que isso, uma necessidade daqueles partidos afirmarem que existem?
É isso. E, como sempre, a esquerda divide-se muito mais do que a direita. Esta está sempre muito mais unida e soube limitar o número de candidatos que se perfilavam. Santana Lopes, Rui Rio e outros poderiam ter avançado, mas a direita é muito mais organizada no cerrar fileiras do que nós, nesse ponto de vista. A esquerda é mais diversa. Essa diversidade é muito saudável e quando há um líder como António Costa, que soube fazer as pontes e ter a capacidade de diálogo, a esquerda pode juntar-se em torno de um objetivo. Fez o “25 de Abril” e, quando há grandes objetivos nacionais, a esquerda une-se.
Este modelo de governação tem capacidade para se manter durante toda a legislatura?
Sinceramente, julgo que sim. Vejo genuinamente, junto do grupo parlamentar do PCP, dos Verdes e do BE, com quem trabalhamos diariamente, que há uma genuína vontade de levar este projeto até ao fim. Os partidos mais à esquerda do PS têm demonstrado que defendem o interesse dos trabalhadores, dos mais desfavorecidos em primeiro lugar. Reconheço-lhe o facto de terem posto o interesse do país em primeiro lugar. Julgo que é genuíno, esse interesse e o PS está genuinamente interessado em fazer as cedências até ao ponto em que puder. Quer o PCP, quer o Bloco de Esquerda, devem reconhecer isso, pois o PS está genuinamente interessado em fazer com que este projeto à esquerda funcione e no sentido de evitar que Portugal tivesse mais um ciclo governativo que continuasse a afunilar o Estado Social, a afunilar o bem-estar dos portugueses e continuasse a afunilar a economia numa lógica que consideramos errada. Consideramos que é possível, apesar de tudo, promover o crescimento de outra forma.
Com os partidos mais à esquerda a fazer a chamar a si todas vitórias a nível da concertação social, como irá o PS reagir?
Se isso acontecer, não virá daí nenhum mal ao mundo.
Numa eventual segunda volta e com a eventual presença do candidato Sampaio da Nóvoa, espera com os eleitores de Maria de Belém voltem nele e vice-versa?
Absolutamente. Espero que haja segunda volta e sei que toda a esquerda se irá unir em torno de quem se opuser a Marcelo Rebelo de Sousa.
Está convencida de que, na eventualidade de uma segunda volta, a esquerda vence a Presidência da República?
Faremos tudo nesse sentido. E se todos os que estão empenhados em evitar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa esclarecerem bem os eleitores e demonstrarem bem que ter um “entertainer” de televisão, ter um comentador e alguém com um percurso tão errático como Marcelo Rebelo de Sousa (na Presidência da República), concluírem que esta não nos dá garantias para o ser o mais alto magistrado da Nação.
Por Vítor Norinha/OJE
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