Este livro, com mais de cem anos, tem reflexões sobre nós: “Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá, as coisas do Grande Espírito, o Papalagui pretende dar novamente vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas”.
Reler estes textos em 2016, na Europa, em Portugal, provoca perplexidade e deixa-nos a pensar o que mais diria ele agora, nesta espiral decrescente de sentido em que estamos confortavelmente instalados. Carl Jung disse que “o sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável”. Talvez por isso, a falta de sentido dos tempos que atravessamos torne quase tudo bastante insuportável. Por exemplo, qual a prioridade: criar emprego e investimento ou desfazer negócios já realizados, criando desconfiança e fuga de qualquer investidor estrangeiro para Upolu na Samoa em vez de Portugal; fortalecer um desorganizado serviço de prestação de saúde, sem cuidados hospitalares esperados no primeiro mundo durante o fim-de-semana ou investir em “interromper” pessoas (interromper é agora sinónimo de terminar) por que é um “direito”, seja o aborto livre ou a eutanásia; preparar os jovens com uma instrução sólida e competitiva para poderem competir num mundo cada vez mais global ou acabar de vez com exames e avaliações? Como conciliamos o valor profundo dos direitos dos nossos próximos com o terror que temos de que um desses próximos se faça explodir no café onde vamos todos os dias?
Portugal anda agora na boca do mundo. Até o cómico Donald Trump fala de nós, como exemplo depreciativo, naturalmente (embora eu prefira que seja ele a lembrar-se de nós do que a agência de notação financeira canadiana DBRS). Fala-se de governação “a la portuguesa” e do “profissionalismo” que mostramos em fazer erratas de erratas de erratas em documentos sem grande importância como o Orçamento Geral de Estado. Começa a ser cada vez mais difícil ser Papalagui. Fala-se em milhões de desempregados nos próximos anos, no declínio do estado social tal como o conhecemos, de uma Europa frouxa e sem coerência (basta ver como os diversos países que a compõem lidaram e lidam com a dita “crise dos refugiados”).
Nós, os Papalaguis, continuamos a ser uma contradição com pouco sentido até para nós. É, então, urgente encontrar um sentido para que, como diz Jung, as coisas se tornem suportáveis.
Ana Loya
Administradora Ray Human Capital



