O Governo emitiu uma portaria que volta a permitir caçar na Reserva Natural da Serra da Malcata, um dos habitats históricos de ocorrência de lince-ibérico (uma espécie em risco de extinção) e de outras espécies de fauna e flora autóctones.

Desastres naturais, doenças desconhecidas ou ataques de outros predadores são algumas das ameaças naturais que os animais sofrem e que podem levar à extinção das espécies. Mas nenhuma das ameaças exteriores está provada como mais destrutiva que a ação humana, nomeadamente a caça.

Sabendo-se que a caça furtiva aos elefantes em África representa a quarta maior rede mundial de crime organizado, porque a espécie está a ser dizimada pelo homem sedento de riqueza, seria de esperar que conseguíssemos olhar de forma mais consciente para a atividade cinegética. Também em Portugal a conservação das espécies requer esforço para evitar que se percam alguns dos animais mais emblemáticos do território e não falamos apenas do mais conhecido felino, o lince ibérico, mas também de outras espécies ameaçadas, como a salamandra lusitânica, o lobo ibérico, o pequeno saramugo, a foca monge, que costumava existir em todas as costas mediterrânicas e na Ilha da Madeira, mas hoje a sua população não excede os 450 indivíduos, e a águia-imperial ibérica, que só nidifica em Espanha e em Portugal e que está em risco pela diminuição dos coelhos, a sua presa principal, e a fragmentação dos montados, o habitat que prefere para nidificar.

Por um lado, admitimos pesticidas nas nossas mesas, resultado da agricultura moderna; por outro, continuamos a contribuir para o desaparecimento de espécies raras do planeta. E quais são os valores subjacentes? O desporto? O divertimento? Um fim de semana de manutenção da tradição, no campo, com os amigos à custa da morte de outros Seres? O PAN incentiva o entretenimento, a cultura e os valores e são tantas as possibilidades de continuar a praticar desportos na natureza sem interferir com o seu curso natural. Vivemos épocas de profundas contradições e a espécie humana precisa repensar com urgência que rumo quer dar à sua pegada no planeta.

O mundo enfrenta sérios problemas ambientais e um dos mais graves é o desperdício e subjacentes desequilíbrios. Já temos um desafiante problema para resolver nos próximos anos: o de produzir alimentos suficientes para a população mundial que sejam saudáveis tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente. Então qual a necessidade de continuar a caçar se não é por uma questão de sobrevivência da espécie?

Arriscando-me a incorrer sobre reflexões macro acerca do tema da caça, volto ao ponto de partida deste exercício: diversos estudos têm demonstrado que os distúrbios causados pela caça não só afetam as espécies-alvo, mas quase todas as espécies presentes no território de caça. A caça é uma das atividades que mais perturba a vida selvagem. Neste caso, não existe qualquer necessidade ou fundamentação científica que justifique permitir a caça numa reserva natural, sobrepondo os interesses da caça aos da conservação da biodiversidade. O abate a tiro é uma das principais causas de morte não natural do lince ibérico e do lobo-ibérico. A área abrangida pela reserva Natural da Serra da Malcata (RNSM) constitui um raro refúgio natural em território português possuindo interessantes valores botânicos e faunísticos.
Na maioria do território português é possível exercer a atividade cinegética, sendo muito poucas as áreas no território nacional onde não se caça. Num país civilizado, em que se poderia optar por diminuir as áreas de caça, manter tudo como está ou aumentar estas áreas parece irresponsável e óbvia a opção de Portugal.

Se a Reserva Natural da Serra da Malcata se depara com graves lacunas de funcionamento devido à falta de recursos humanos e financeiros, o que se reflete e afeta às ações de vigilância e fiscalização que (não) se realizam e com graves problemas de caça furtiva, a opção de agora permitir a caça nesta área protegida só irá agravar os problemas de fiscalização nesta área, mais uma contradição que me é difícil compreender. Resta-nos aguardar pelos esclarecimentos do senhor ministro do Ambiente e exigir a revogação desta decisão.

André Silva
Porta-voz e Deputado do PAN – Pessoas – Animais – Natureza