Os números que o Banco de Portugal recentemente divulgou referentes ao crédito ao consumo concedido às famílias em Março, 349 milhões de euros, revelam que estamos perante a melhor performance dos últimos anos (é necessário recuar a dezembro de 2010 para se encontrar volumes superiores). Ora, fruto da frágil situação económica que Portugal tem atravessado, muitas têm sido as vozes a insurgirem-se contra a concessão de crédito. Mas será mesmo um “bicho-papão”?

O crédito ao consumo tem um impacto substancial sobre qualquer economia pois tanto ajuda as famílias a financiar gastos em bens de consumo como funciona como um motor de crescimento da atividade económica. Se o seu avolumar pode ser negativo, é certo de que a sua restrição perturbará a evolução dos diferentes setores produtivos do nosso país.

Apesar de ser financiado com juros, esta solução tem vários aspetos positivos para quem o solicita. A possibilidade de ajudar um familiar com uma doença grave ou uma cirurgia de urgência são situações que saem do controlo e, no caso de não existirem poupanças ou rendimentos que suportem estas despesas, pode ser uma opção viável.

Também são muitos os portugueses que recorrem ao crédito ao consumo para concretizar sonhos e projetos pessoais. Aqui falamos, por exemplo, do financiamento de um pequeno negócio ou de um curso superior. Nestes casos, o crédito deve até ser encarado como um investimento, sendo este esforço compensado posteriormente ao terem os seus negócios estabelecidos ou conseguido melhorar as suas situações profissionais.

E por que razão deveremos censurar o recurso ao crédito para satisfação pessoal? Será que alguém que trabalhou anos a fio não pode querer investir finalmente numas merecidas férias no seu destino de sonho?

Ou então, se por ter conseguido um excelente emprego numa cidade distante, um pai de família precisar de pedir um empréstimo para comprar um segundo carro – isto porque não quer deslocar toda a família no imediato, preferindo que os seus filhos terminem o ano escolar primeiro -, também não deveremos considerar neste tipo de casos o crédito como uma solução benéfica?

Na verdade, em Portugal a maior parte dos créditos concedidos são efetivamente destinados à compra de automóveis e habitações (não é de estranhar que, acompanhando a tendência, também o crédito habitação tenha atingido máximos de quase cinco anos de acordo com os dados de Março do BdP). Tendo em conta estas finalidades, não se pode dizer que os portugueses são propriamente “irresponsáveis” quanto ao endividamento visto tratarem-se de investimentos importantes para a qualidade de vida de qualquer família.

Importa referir, neste sentido, que tendo em conta que parte do PIB se deve ao consumo das famílias, um maior volume de crédito tende a aumentar o poder de compra da população, havendo um impacto indireto sobre o crescimento económico do país.

Simultaneamente, à medida que a economia fica mais estruturada em função do aumento da procura por parte da população, haverá também um aumento na oferta de produtos e serviços. Esta é estimulada por dois fatores: além do aumento do consumo, o maior volume de crédito também deve impulsionar o aumento nos investimentos e, consequentemente, impulsionará o PIB.

Por sua vez, o crescimento do PIB tem também influência em outras variáveis, como por exemplo a empregabilidade. Com o aumento do investimento por parte das empresas na produção, há a necessidade de haver também mais mão-de-obra, mais ou maiores espaços físicos ou mesmo equipamentos tecnologicamente mais avançados. Com o aumento da taxa de emprego a população tem uma maior predisposição para consumir, havendo maior fluxo de circulação de capital.

Se já estamos todos conscientes das consequências negativas do endividamento, é necessário igualmente manter presente a ideia de que a utilização destes produtos financeiros, quando equacionada dentro de uma estruturação equilibrada das finanças pessoais, faz com que a população consiga ter acesso a produtos ou serviços importantes para a melhoria do seu bem-estar e qualidade de vida que de outra forma seriam inalcançáveis.

O crédito ao consumo não tem de ser um “bicho-papão”, mas antes uma importante solução ao dispor das famílias. Cabe agora às instituições financeiras apostarem em políticas de transparência e reforçar a disponibilização de informação rigorosa e acessível para que os consumidores possam tomar decisões de forma consciente.

 

Por : Sérgio Pereira

Diretor geral do ComparaJá.pt