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“A Face da Guerra”: reportagens com olhar frio e coração quente

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.
Marta Teives
29 Outubro 2016, 10h05

Reportagens comprometidas em tempo de guerra são coisa do passado. Mas, numa altura em que o mundo vive tantas e tão profundas convulsões, é lamentável que os orçamentos e as modas dos meios de comunicação já não as comportem.

Martha Gellhorn (1908-1998) nasceu em St. Louis, nos EUA. Em 1930, aproveitando uma passagem gratuita, viaja até Paris, convicta de que poderia ganhar a vida como correspondente estrangeira. De volta aos Estados Unidos, e graças à sua amizade com Eleanor Roosevelt, a mulher do então Presidente, é contratada para viajar pelo país e relatar o impacto da Grande Depressão, descrevendo em particular o dia-a-dia das famílias que entretanto ficaram sem trabalho, sem casa, sem comida. Este período da sua vida viria a ter um forte impacto no seu olhar enquanto jornalista e nas suas preocupações sociais.

O seu sonho cumprir-se-ia em 1937, quando regressa à Europa como correspondente de guerra. Juntamente com Hemingway, que conhecera no ano anterior, vai para Espanha fazer a cobertura da Guerra Civil. Mais tarde, na Alemanha, relata a ascensão de Hitler e, em 1938, encontra-se na Checoslováquia quando as tropas alemãs ocupam parte do país. Segue-se a Finlândia, com a chamada Guerra de Inverno – quando a União Soviética invade a Finlândia, no final de 1939); a China, onde ia relatar a guerra sino-japonesa, em particular a defesa de Hong Kong, Singapura e Índias Holandesas (“A ideia de que a China era uma democracia sob as ordens do generalissimo é o tipo de piada que os políticos inventam e que os jornalistas perpetuam”); e a Segunda Guerra Mundial.

Como não tinha credenciais oficiais, Martha Gellhorn escondeu-se na casa de banho de um navio-hospital e, já em terra, fez-se passar por maqueira, tendo assim sido a única mulher a tomar parte do desembarque na Normandia, no Dia-D, a 6 de Junho de 1944. Foi das primeiras a escrever sobre o campo de concentração de Dachau, depois da libertação pelas tropas Aliadas.

 

gellhorn

 

Um dos melhores textos incluído nesta antologia, que vai até à invasão do Panamá, em Agosto de 1990, é precisamente sobre a Segunda Guerra Mundial. Intitula-se “Os Lanceiros dos Cárpatos” e não chegou a ser publicado pela Collier’s Weekly, a revista para a qual Gellhorn trabalhava, provavelmente por parecer demasiado crítico para com os russos, então aliados. Nela, a jornalista relata o avanço das tropas na frente italiana, em particular deste contingente de polacos.

Curiosamente, o artigo debruça-se mais sobre o futuro aparecimento e sucesso do Solidariedade, na Polónia, do que muitas análises políticas que então se fizeram. Olhares profundos e descomprometidos – ou comprometidos com a justiça social, mas sem sentimentalismos torpes – que nos ajudariam a compreender melhor o mundo de hoje, se reportagens deste género ainda fossem possíveis.

Martha Gellhorn, que foi a terceira mulher de Hemingway, é admirada sobretudo por aliar um olhar frio a um coração quente, e é justamente considerada uma das maiores jornalistas do século XX. O livro “A Face da Guerra” está publicado em português pela D. Quixote.


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