Reportagens comprometidas em tempo de guerra são coisa do passado. Mas, numa altura em que o mundo vive tantas e tão profundas convulsões, é lamentável que os orçamentos e as modas dos meios de comunicação já não as comportem.
Martha Gellhorn (1908-1998) nasceu em St. Louis, nos EUA. Em 1930, aproveitando uma passagem gratuita, viaja até Paris, convicta de que poderia ganhar a vida como correspondente estrangeira. De volta aos Estados Unidos, e graças à sua amizade com Eleanor Roosevelt, a mulher do então Presidente, é contratada para viajar pelo país e relatar o impacto da Grande Depressão, descrevendo em particular o dia-a-dia das famílias que entretanto ficaram sem trabalho, sem casa, sem comida. Este período da sua vida viria a ter um forte impacto no seu olhar enquanto jornalista e nas suas preocupações sociais.
O seu sonho cumprir-se-ia em 1937, quando regressa à Europa como correspondente de guerra. Juntamente com Hemingway, que conhecera no ano anterior, vai para Espanha fazer a cobertura da Guerra Civil. Mais tarde, na Alemanha, relata a ascensão de Hitler e, em 1938, encontra-se na Checoslováquia quando as tropas alemãs ocupam parte do país. Segue-se a Finlândia, com a chamada Guerra de Inverno – quando a União Soviética invade a Finlândia, no final de 1939); a China, onde ia relatar a guerra sino-japonesa, em particular a defesa de Hong Kong, Singapura e Índias Holandesas (“A ideia de que a China era uma democracia sob as ordens do generalissimo é o tipo de piada que os políticos inventam e que os jornalistas perpetuam”); e a Segunda Guerra Mundial.
Como não tinha credenciais oficiais, Martha Gellhorn escondeu-se na casa de banho de um navio-hospital e, já em terra, fez-se passar por maqueira, tendo assim sido a única mulher a tomar parte do desembarque na Normandia, no Dia-D, a 6 de Junho de 1944. Foi das primeiras a escrever sobre o campo de concentração de Dachau, depois da libertação pelas tropas Aliadas.

Um dos melhores textos incluído nesta antologia, que vai até à invasão do Panamá, em Agosto de 1990, é precisamente sobre a Segunda Guerra Mundial. Intitula-se “Os Lanceiros dos Cárpatos” e não chegou a ser publicado pela Collier’s Weekly, a revista para a qual Gellhorn trabalhava, provavelmente por parecer demasiado crítico para com os russos, então aliados. Nela, a jornalista relata o avanço das tropas na frente italiana, em particular deste contingente de polacos.
Curiosamente, o artigo debruça-se mais sobre o futuro aparecimento e sucesso do Solidariedade, na Polónia, do que muitas análises políticas que então se fizeram. Olhares profundos e descomprometidos – ou comprometidos com a justiça social, mas sem sentimentalismos torpes – que nos ajudariam a compreender melhor o mundo de hoje, se reportagens deste género ainda fossem possíveis.
Martha Gellhorn, que foi a terceira mulher de Hemingway, é admirada sobretudo por aliar um olhar frio a um coração quente, e é justamente considerada uma das maiores jornalistas do século XX. O livro “A Face da Guerra” está publicado em português pela D. Quixote.
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