Em 1990, o poeta e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998) recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Antes, em 1981, já tinha sido galardoado com outro importante prémio literário: o Cervantes. O comité que decidiu a atribuição do Nobel justificou a sua decisão afirmando que a sua escrita “é apaixonada e de horizontes largos, aliando inteligência sensual a integridade humanística”.
Estas características da sua escrita não estão presentes apenas na sua poesia. A obra “Vislumbres da Índia” é também um belo exemplo. Colocado em 1951 na Embaixada do México em Deli, na primeira missão do seu país na Índia – que se tornara independente em 1947 –, aí regressaria em 1962, desta vez para ocupar o cargo de embaixador, posto onde permaneceu cerca de seis anos. Era, ao mesmo tempo, embaixador junto dos governos do Afeganistão e do Ceilão (atual Sri Lanka).
Este tempo em que viveu na Índia permitiu-lhe um conhecimento do país que não está ao alcance do turista comum, e é esse conhecimento que Octavio Paz partilha com o leitor neste livro. Para mais, considerava que o facto de ser mexicano – e, portanto, oriundo de um país que, na altura, se considerava do Terceiro Mundo – lhe permitia compreender melhor os indianos e a realidade indiana.

Da primeira vez, saindo de Paris a caminho de Deli, passa uma semana em Bombaim. O fascínio é imediato. “Naquela época eu era um jovem poeta bárbaro. Juventude, poesia e barbárie não são inimigas: no olhar do bárbaro há inocência, no do jovem apetite de vida, e no do poeta há assombro.” Este fascínio inicial manter-se-ia ao longo da sua vida, mesmo quando visitava o país muitos anos depois das funções oficiais que aí desempenhara – Paz demitiu-se da carreira diplomática em 1968, na sequência da violenta repressão do governo mexicano às manifestações dos estudantes.
Em “Vislumbres da Índia”, editado em Portugal pela Relógio d’Água, Octavio Paz faz um retrato deste país que tanto o fascinou. Da religião (ou melhor, religiões) às castas – “A casta é o contrário das nossas classes e associações, formadas por indivíduos. Nela a realidade primordial é a colectiva” –, da política à diversidade dos sabores da cozinha – “A Índia é um museu etnográfico e histórico” – passando pela poesia, a escultura ou o desejo do prazer sexual – “A Índia não entrou em mim pela cabeça mas sim pelos olhos, pelos ouvidos e pelos outros sentidos”.
Mais do que um mero relato de viagem, “Vislumbres da Índia” é um mergulho de grande intensidade poética na história e no quotidiano de um país onde tudo apela aos sentidos.
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