1. Ler nos jornais que a Cimpor perdeu 93% do seu valor, em cinco anos, é uma dor que cai fundo a quem, durante um tempo alargado, acompanhou, profissionalmente, o evoluir promissor desta empresa (grupo) e assistiu à consolidação da indústria cimenteira em Portugal e à sua grande competitividade externa.

Nos princípios da década de 90 do século XX, escrevi sobre a indústria do cimento que este sector económico assente fundamentalmente em duas grandes empresas produtoras – Cimpor e Secil – tinha vindo a adoptar uma estratégia de fileira sectorial, estendendo-se assim para montante e jusante, ou seja, para abarcar as pedreiras e outras matérias-primas e para as actividades utilizadoras do cimento como os betões, agregados e prefabricados, aliás, à boa maneira dos grupos mais dinâmicos, maiores e tecnologicamente mais avançados a nível europeu e mundial. Estavam a posicionar-se num xadrez de constituição de grupo económico numa filosofia de base industrial.

Por outro lado, estavam em curso profundos e criativos esforços de internacionalização, muito significativos em termos de ganhar posição mundial. As empresas produtoras de cimento portuguesas, ultrapassada a sua fase de reestruturação, aliás bem sucedida, e em que se dotaram de tecnologias mais avançadas e um consumo relativo de energia das mais baixas do mundo apresentavam-se com uma forte competitividade face às melhores a nível mundial.

A grande reflexão era o rumo. A expansão para África era natural, para a Europa também. Mas aqui a competição era feroz pois a procura europeia de cimento encontrava-se em estagnação na maioria dos países e as perspectivas de crescimento futuro não eram favoráveis. Era uma presença de prestígio e de negócio, o que exigia mais criatividade com o avançar para aquisições ou fusões.

2. O grupo Cimpor dispunha de uma grande folga financeira pois na reestruturação da indústria nacional cedeu duas unidades à Secil, obtendo assim grandes contrapartidas financeiras. E mantinha, apesar disso, a liderança do sector (60% da capacidade e do mercado), abarcando o mundo empresarial da Cimpor cerca de 30 unidades empresariais contra 20 da Secil.

A reestruturação que a indústria desenvolveu foi mesmo bastante eficaz. Portugal ganhou pujança no sector e criou empresas modernas, bem dimensionadas e tecnologicamente na dianteira mundial. A Cimpor chegou a figurar no top das dez maiores empresas de cimento mundiais. No período 1991-1992, estas duas empresas eram ainda controladas pelo Estado e estavam a ser objecto de estudo de privatização.

3. A privatização foi um processo longo, que atravessou quatro grandes fases com início em 1992, terminando em Junho de 2012 quando o grupo brasileiro Camargo Corrêa passou a controlar 72,9% do capital social. Um longo período de 20 anos levou a privatização. Com o controlo do capital social da Cimpor pela Camargo inicia-se o enterro lento de uma das empresas estrela da economia portuguesa.

4. A Cimpor é, hoje, uma pálida imagem da Cimpor anterior à OPA da Camargo. Os indicadores económicos dizem tudo. Vejamos alguns indicadores dos mais conhecidos que comparam 2011, o ano antes da OPA, com 2016, o último e recente a nível de ano completo.

Resultados da Cimpor:

2011 – Lucros: 198 milhões de euros; 2016 – Prejuízos: 786 milhões de euros

Emprego: 

2011 – 1200 Trabalhadores; 2016 – 820 Trabalhadores; Menos 380 Trabalhadores

Capitalização bolsista: 

2011- 3,573 mil milhões de euros; 2016 – 235 Milhões de euros; Menos 3,338 mil de milhões

Dívida: 

2011 – 1,6 mil milhões de euros; 2016 – 3,3 mil milhões de euros; A dívida aumentou para mais do dobro.

Muito decepcionante é este balanço. De estrela pujante na economia portuguesa passou a uma sombra vagueante. Em perda estonteante. Muitas culpas podem ser atribuídas a muita gente, dos gestores aos governos deste longo período, que não souberam ou não quiseram definir uma estratégia de privatização, nem negociaram contrapartidas de interesse para a economia portuguesa. Mas a culpa está, essencialmente, na Camargo, que “desnatou” completamente a Cimpor criando imparidades no Brasil.

5. Quem perde com este descalabro? Desde logo, o mundo do trabalho. É imediato e não sofre contestação. A perda de 380 empregos, quase 32% do número de postos de trabalho que a Cimpor detinha. Depois, a economia portuguesa no seu todo, que vê reduzida à maior insignificância uma das suas empresas de topo e muito competitiva a nível internacional. O fisco, que deixa de receber muitos milhões de impostos por ano. Em 2011, a Cimpor pagou cerca de 71 milhões de euros… Os fornecedores que perdem mercado significativo e importante. Quantos terão ido à falência por arrastamento?!

6. Triste balanço. Dói mesmo muito ver cair uma empresa de grande pujança, onde a mão humana esteve presente e sempre activa negativamente, e não haver penalizações. O mundo das empresas e das grandes empresas beneficia de grande impunidade. Um Estado Social que se preze não pode, nem deve, assistir a estas situações de braços caídos. Há aqui um compadrio que urge romper.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.