Tudo continua igual: de um lado a oficina, do outro o espaço de venda. O senhor António, hoje na casa dos 80 anos, de boné na cabeça, estava sentado num pequeno banco de madeira. O cheiro a óleo invadia a oficina e o rádio tocava músicas da década de 80 – “Nowhere Fast”, que faz parte da banda sonora do filme “Streets of Fire”, e 40º graus à Sombra dos Radar Kadafi, entre outros temas. Muito longe do tempo em que desempenava uma roda com mestria o senhor António limita-se a dizer que o filho é que pode explicar a evolução do negócio. Vestido com roupa de mecânico, Pedro “das motos” começa a falar: “Reparo 20 a 25 bicicletas e 6 a 7 motorizadas por semana. Sou sozinho e trabalho mais de 12 horas por dia, é este o segredo do nosso negócio”, diz.

A concorrência das grandes superfícies deixou o negócio do senhor António na luta pela sobrevivência. Em 1948 começou a alugar e a reparar bicicletas num palanque na zona de Oeiras e a fama rapidamente se espalhou pelo país. Do Algarve até ao Porto todos os conheciam. “Hoje em dia quem está a matar isto são as grandes lojas”, desabafa o filho, que há 10 anos trocou o nome do estabelecimento para “Oeiras Bike”. Atualmente, regressou ao nome ‘vintage’ porque os clientes gostavam mais. Pedro “das motas” gaba-se de ter aprendido com o pai a desempenar um quadro ou enraiar uma roda. “Nós fazemos na perfeição. Agora basta ter um curso de seis meses para se poder ser técnico”, diz com ironia. No final desta curta visita deixei a loja nostálgico. E também arrependido por não ter comprado ali um modelo para a minha filha de sete anos (optei por uma grande superfície). Mais do que fazer desporto ou aprender a ter um estilo de vida saudável, a compra da primeira bicicleta acaba por ser um marco para a vida.