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Ratko Mladic: ‘carniceiro da Bósnia’ à espera de um veredito sobre condenação por genocídio

Tribunal de Haia decidirá esta terça-feira sobre dez crimes pelos quais o ex-comandante sérvio bósnio foi condenado à prisão perpétua em 2017. É o veredito final e sem recurso, depois da condenação de novembro de 2017.
8 Junho 2021, 09h00

O ex-comandante sérvio bósnio – ou mais propriamente da Republika Srpska – Ratko Mladic, conhecido como o ‘carniceiro da Bósnia’, enfrenta esta terça-feira o último dia de julgamento no Tribunal Internacional de Crimes de Guerra de Haia, Holanda, onde ouvirá o veredito final sobre a sua apelação contra a condenação por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Vinte e seis anos depois daquilo que ficou conhecido como o massacre de Srebrénica, Mladic, atualmente com 78 anos, comparecerá perante o tribunal penal internacional (apoiado pelas Nações Unidas) para a ex-Jugoslávia (ICTY) para o que se espera que seja mais de uma hora de leitura da decisão, segundo avançam os observadores.

Cinco juízes apresentarão as suas conclusões sobre dez crimes – envolvendo extermínio, deportação, terror, toma de reféns e ataques ilegais contra civis – pelos quais Mladic recebeu prisão perpétua em 2017.

O tribunal também decidirá sobre o pedido do promotor da ONU Serge Brammertz para que uma nova acusação de genocídio seja adicionada à lista de condenações. Será o julgamento final do tribunal, sem recurso para recurso.

As mães de algumas das oito mil pessoas mortas no pior ato de derramamento de sangue em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial devem reunir-se fora do tribunal quando o veredicto chegar. Para os observadores, o resultado da audiência permanece incerto, embora seja altamente improvável que Mladic saia livre da prisão – uma vez que isso exigiria que três dos juízes o absolvessem de todas as acusações.

Mladić, que passou mais de uma década a fugir antes da sua captura em 2011 no norte da Sérvia – apesar de, afirmava-se na altura, centenas de pessoas saberem onde o foragido se encontrava – foi o chefe de gabinete das forças sérvias bósnias de 1992 até 1996, durante a guerra civil que se seguiu ao fim do Estado jugoslavo.

Para os juízes do TPIJ, que o condenaram a prisão perpétua em novembro de 2017, e desde sempre considerado por Belgrado e pelos sérvios bósnios como uma instância “parcial e anti-sérvia”, Mladic é considerado o terceiro arquiteto da limpeza étnica durante um conflito intercomunitário que provocou cerca de 100 mil mortos e 2,2 milhões de deslocados.

Na sequência da desagregação da Jugoslávia federal em 1991 – que sobreviveria pouco tempo à morte de Tito – com as autoproclamadas independências da Croácia e Eslovénia (seguiu-se a Macedónia e depois a Bósnia em 1992), o ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, que morreu em 2006 numa cela no TPIJ, defendia a permanência no mesmo território das populações sérvias, com importantes minorias na Bósnia e Croácia, enquanto negociava com as potências internacionais.

Quando se iniciou a guerra civil bósnia, na primavera de 1992, Mladic foi transferido para Sarajevo, após ter combatido na Croácia contra as forças nacionalistas de Franjo Tudjman, submetendo a capital bósnia a um cerco que se prolongará por quatro anos – ao cabo dos quais cerca de 10 mil habitantes foram mortos pelas balas de atiradores furtivos ou pelos obuses lançados das montanhas circundantes controladas pelas forças de Mladic.

Quem não resistiu ao conhecimento da tragédia e do massacre perpetrado por Mladic foi, segundo dizem vários biógrafos, a sua filha, Ana, que se suicidaria em 1994 depois de tomar conhecimento das atividades do pai.


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