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Inteligência artificial: Portugal tem de especializar-se e investir na formação, diz especialista da PwC

Rob McCargow, diretor de Inteligência Artificial da consultora PwC United Kingdom, avisa que Portugal não tem dimensão ou recursos para competir em todas as vertentes da inteligência artificial ao mesmo tempo e vai ter de especializar-se para ter sucesso. Antes, terá de apostar decididamente na formação.
7 Dezembro 2021, 07h35

Portugal não classifica mal nos estudos sobre a capacidade e a prontidão para o aproveitamento da inteligência artificial, tanto pela generalidade da sociedade como pelo governo, em particular. Em entrevista ao Jornal Económico, Rob McCargow, diretor de Inteligência Artificial da consultora PwC United Kingdom, defende que é necessário investimento em formação, requalificar os recursos já disponíveis no mercado de trabalho e avisa que Portugal tem de especializar-se. “Portugal não pode fazer tudo”, diz. “Tem de escolher as batalhas estrategicamente em torno da indústria, em torno de casos de uso”, acrescenta.

Como analisa o estado da arte da inteligência artificial em Portugal?

Obviamente, olha para a inteligência artificial de uma perspetiva global e do Reino Unido. No que respeita a Portugal, há um índice muito bom no Reino Unido, denominado Global AI Index, da Tortoise, que analisa todos os diferentes fatores que compõem a abordagem de um país à inteligência artificial: infraestrutura, talento, acesso a dados, inovação, capacidade de pesquisa e desenvolvimento. [O estudo de 2020] cita Portugal como 36º país, no mundo, neste momento. Então, claramente, a China e os EUA estão na dianteira, o Reino Unido está provavelmente em terceiro – um distante terceiro –, seguindo-se um aglomerado de outros países europeus, com Portugal na 36ª posição.

Um outro índice produzido no ano passado, de outra empresa do Reino Unido, a Oxford Insights, analisa a prontidão dos governos relativamente à inteligência artificial, e, aqui, Portugal está na 27ª posição quanto à sua prontidão para adotar a inteligência artificial ao nível governamental. É uma boa posição em relação ao tamanho do país, mas acho que podem olhar para outros países para emular o que estão a fazer.

Um país que sempre cito como exemplo é a Finlândia. E uma das coisas que os finlandeses fizeram é que, há cerca de três anos, lançaram um programa de formação em inteligência artificial acessível a todos os habitantes; todo, quer dizer todos, estava disponível até para quem estava preso, para ajudar na reabilitação. Tinha por base o facto de que o impacto desta tecnologia sobre os cidadãos é tal que, se aumentarmos o nível de maturidade digital para toda a população, esta será capaz de escrutinar melhor as decisões [do governo], melhora as suas oportunidades de emprego e, por sua vez, leva a melhores oportunidades de crescimento económico. Assim, há países que, provavelmente, estão a sair-se melhor, mas agora tudo se resume ao que vai acontecer nos próximos anos.

Há muito investimento direcionado ao ambiente, há muito crescimento em startups – e eu sei que Portugal tem uma reputação muito forte em startups de tecnologia – e há investimentos de grandes empresas, que procuram crescer nesta região. É realmente o que acontece a seguir, em termos de como Portugal pode continuar a definir a posição que representa na inteligência artificial. Portugal não pode fazer tudo, não é a China ou os EUA, tem de escolher as batalhas estrategicamente em torno da indústria, em torno de casos de uso e tem de se tornar famoso por uma área específica no mercado de inteligência artificial.

Em Portugal, estamos a ter problemas de escassez de talento, depois da pandemia, como em outros países. Como é que este problema pode ser enfrentado?

É uma história comum. Não sei se é melhor no Reino Unido, temos um crescimento significativo, temos os maiores níveis ofertas de emprego já registados, em toda a economia. A tecnologia é uma parte fundamental [no que está a acontecer] e isso exige que pensemos de forma diferente. Exige que nós, como líderes empresariais, trabalhemos mais intimamente com o sistema educacional, para antecipar mudanças no currículo; exige que repensemos qual deve ser o caminho para as carreiras em tecnologia.

Sabemos que há mercados mal explorados, em particular, em torno de inspirar as raparigas e as mulheres a entrarem no sector tecnológico.

Há também um grande problema de perceção, há um preconceito de que apenas certos tipos de pessoas podem seguir uma carreira em tecnologia, portanto, temos de quebrar essas barreiras. Uma das coisas que têm sido muito poderosas no Reino Unido é o programa tecnológico “She Can” [Ela pode] – que é uma instituição de caridade que lançámos para criar modelos para ajudar a mudar a política ao nível do governo, para inspirar meninas muito mais jovens, e estou a falar de dez, onde ou doze anos, quando tomam decisões sobre carreiras, para pensarem numa carreira em tecnologia, para não esperarem até que tenham 21 ou 30 anos. Portanto, há coisas que temos que fazer para diversificar o mercado de talentos e a cadeia de abastecimento desse mercado.

Assim, finalmente, depende de como atraímos pessoas de diferentes origens, pessoas das ciências sociais, mudanças de carreira, requalificação e qualificação dos membros existentes no mercado de trabalho.

É possível atrair pessoas com outras formações para a tecnologia?

A própria essência do que é um tecnólogo está a mudar.

Uma das áreas em que me concentrei nos últimos cinco anos é no conceito de fazer bem a inteligência artificial – no Reino Unido designamos isto por “inteligência artificial responsável”. Como inovar com tecnologia, movendo-se rapidamente, ficando à frente da concorrência e sendo uma organização genuinamente pioneira no uso de inteligência artificial, mas não de uma forma que crie riscos adicionais, que leve a problemas éticos, a questões de justiça e de preconceito e a potenciais danos de reputação, comerciais ou que leve a sanções regulatórias? Existe uma maneira de fazer isto e uma das melhores formas é no coração da força de trabalho, [através da] diversidade, não apenas do ponto de vista de género e da etnia, que é vital, mas, além disso, através do que podemos classificar como interdisciplinaridade, para que as pessoas sejam capazes de trabalhar em diferentes funções. Muitas das minhas equipas têm diversidade de uma perspetiva disciplinar; uma das minhas equipas tem um médico, um consultor de ética, um especialista em recursos humanos, especialistas em comunicação, temos até pessoas que olham para isto na perspetiva da filosofia, e o ponto-chave aqui é sermos capazes de fazer as perguntas difíceis: só porque podemos fazer isto, devemos fazê-lo? Só porque cumpre padrões mínimos de uma perspetiva regulatória, ou de cibersegurança, ou de privacidade de dados, temos em conta todas as consequências indesejadas se o concretizarmos? E a melhor maneira de fazer isto é ter uma equipa diversificada, que pode vir das ciências sociais, da filosofia, de diferentes origens, não é puramente uma equipa de tecnologia, monolítica.

A aquisição de novas competências por quem já está no mercado de trabalho e a requalificação são os caminhos para lidar com a transformação da economia? Um estudo promovido pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal e pela Universidade Nova estabelece que metade do trabalho feito atualmente – o estudo é anterior à pandemia – pode ser automatizado até ao final da década. Como uma sociedade pode lidar com mudanças desta magnitude?

Houve uma série de relatórios de alto perfil semelhantes. O primeiro, da Universidade de Oxford, sugeria que 47% dos empregos poderiam ser deslocados; a OCDE tinha um em que referia que o impacto era, apenas, de 14%; a PwC apresentou um relatório há cerca de quatro anos que sugeria que poderia ser 30%, globalmente. Cheguei à conclusão de que não podemos ser muito precisos sobre isto. Tudo o que temos a dizer é que ocorrerá uma mudança significativa, os empregos vão mudar. É importante referirmos, quando falamos para toda a sociedade, em geral, que não são, necessariamente, unidades inteiras de emprego que são substituídas, mas aquilo a que chamamos composição de tarefas – várias tarefas compõem um emprego e existem tarefas diferentes que serão mais afetadas que outras.

Há outro impacto económico interessante: se conseguirmos fazer uma política correta, se pudermos mudar o sistema educacional de forma adequada, se pudermos implantar programas de qualificação rapidamente, o efeito económico da inteligência artificial ​​impulsiona o crescimento da produtividade e vai também impulsionar os efeitos colaterais do consumo na economia. Portanto, outro estudo de alto perfil que fizemos há alguns anos mede efeitos económicos e sugere que a inteligência artificial pode adicionar 15,7 triliões de dólares [cerca de 14 biliões de euros] à economia global até 2030. No sul da Europa, estima-se que pode adicionar 11,5 % de crescimento adicional do PIB [produto interno bruto] até 2030. Portanto, há um enorme prémio económico a que aspirar e se tivermos este nível de crescimento económico, de crescimento da produtividade e de crescimento do consumo, isso pode trazer a procura de trabalho também, mas precisas das pessoas com as competências certas nas funções certas para poder responder a essa necessidade. Se conseguirmos tudo isto corretamente – qualificação, mudança de política, mudanças na educação –, os empregos deslocados podem ser substituídos pela criação de empregos, ao mesmo nível. Nem tudo são más notícias aqui, mas requer ação ao nível empresarial ou governamental e trabalho em todos os ecossistemas de forma mais colaborativa do que jamais fizemos antes.

Considera que todos os agentes que participam nesta mudança têm consciência da sua dimensão e, também do seu papel?

Temos o grande dever de explicar a história com responsabilidade e precisão e remover parte do exagero existente. Há muito a compreensão de que a tecnologia é baseada na ficção científica ou em histórias de terror negativas, quando isto tem de ser feito de uma forma muito mais otimista, porque, se for bem feita, a aplicação da inteligência artificial, como dissemos antes, pode ajudar no crescimento da economia, pode remover riscos e perigo de empregos, pode criar empregos melhores, pode resolver grandes problemas. Tenho pensado muito sobre as aplicações recentes em coisas como as mudanças climáticas, a monitorização da deflorestação, as melhorias nos sistemas de saúde, há tantas aplicações positivas. E isto traz-nos novos tipos de categorias de empregos e empregos realmente interessantes, no futuro. Então, temos que fazer isto de uma forma em que possamos explicar as compensações, temos de demonstrar que há uma necessidade de as pessoas optarem pela oportunidade de adquirirem competências e estarem cientes do poder que essa tecnologia tem hoje, não algo que está a cinco, dez ou 15 anos no futuro. E não considero que esse nível de conversa esteja a acontecer o suficiente na sociedade civil, atualmente.

Quem deveria promover este debate sobre as possibilidades do desenvolvimento tecnológico?

Há sinais promissores. É muito claro que temos de incorporar isto no sistema educacional a uma taxa muito mais elevada e idades muito mais precoces; é muito importante incluir isto no currículo escolar desde muito mais cedo. A comunicação social tem um papel importante aqui – estou a brincar, em parte, mas muitas vezes uma história de inteligência artificial tem como título “IA tira empregos” e uma foto de Arnold Schwarzenegger no [filme] Exterminador Implacável, com olhos vermelhos, o que é muito negativo e muito ficção científica. Definitivamente, é necessário reconhecer que este é um desafio multigeracional e que o pensamento do governo não pode ser de muito curto prazo; isto tem de ser pensado num mandato geracional de dez, 15 ou 20 anos, o que é difícil para os políticos fazerem.

Finalmente, penso que há uma responsabilidade dos negócios, não apenas para responderem às suas próprias necessidades internas, mas para serem um contribuinte positivo para um ecossistema mais amplo, para dar às pessoas acesso à educação e à formação, para impulsionar o que denominamos de mobilidade social, e desempenharem o seu papel nesta revolução da qualificação.


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