Foi com a crise financeira de 2007 que instrumentos não convencionais se tornaram de crucial importância para os bancos centrais na execução das suas respetivas políticas monetárias.
Neste período de recessão, a descida da taxa de juro de curto prazo, instrumento clássico utilizado pelo Banco Central Europeu (BCE), revelava-se insuficiente para fazer face à instabilidade financeira vivida naquele momento, dada a sua significativa aproximação à “effective lower bond”.
Assim, surgiu a necessidade de assegurar, de uma forma mais direta, as condições financeiras necessárias à recuperação económica de particulares e empresas, através de uma participação ativa nos mercados financeiros. Desta forma, deu-se uma expansão dos instrumentos até então utilizados, através da descida das taxas de juro a longo prazo, com o início da compra de ativos financeiros públicos e privados.
Anos mais tarde, surge uma crise pandémica que, apesar de assumir contornos bastante distintos da crise que emergiu em 2007, exige dos bancos centrais uma intervenção igualmente basilar.
A permanência da utilização de instrumentos não convencionais pelo BCE na execução da política expansionista necessária à recuperação económica, através da adoção, entre outros, do Programa de Compras de Emergência Pandémica (PEPP, na sigla inglesa), veio contribuir para a preconização da ideia de que o não convencional começa a ser de vital importância para a eficiência da política monetária.
De facto, estes novos instrumentos não convencionais de que o BCE tem feito uso recorrente conferem-lhe uma maior liberdade de ação no que toca ao seu principal objetivo: a manutenção da estabilidade dos preços.
No entanto, conferir ao BCE a capacidade de interferir de forma direta nos mercados financeiros, mecanismo frágil e volátil, muito assente nas expectativas dos seus intervenientes, exige que a sua ação, no que se refere à alteração da taxa de juro a longo prazo, seja gradual, estando em risco o fenómeno de “self-fulfilling expectations”, com graves consequências para a economia no seu todo.
Numa altura em que a recuperação económica pós-Covid já se começa a sentir em alguns países, registam-se elevados valores de inflação por toda a Europa, com uma média a rondar os 5,1% no mês de janeiro, pressionando o BCE para um abrandamento da política expansionista que tem sido levada a cabo.
Todavia, diminuir a compra de ativos em curso, ou até mesmo aumentar as taxas de juro com o objetivo de combater a inflação, poderá comprometer o atual caminho de recuperação económica, prejudicando os países com elevado nível de dívida pública, como é o caso de Portugal, e abalando os mercados financeiros.
Assim, importa avaliar a possibilidade da permanência de inflação no longo prazo, e consequente influência nos mercados por forma a avaliar uma possível necessidade de atuação por parte do BCE.
O BCE estima mesmo que metade do recente aumento da inflação se deve ao nível de preços praticado no setor da energia. Numa altura em que o conflito Rússia-Ucrânia abre cada vez mais a porta a uma crise no que toca ao fornecimento de gás natural, a incerteza relativamente à permanência dos atuais preços dos produtos energéticos vai aumentando.
É, então, vital, num contexto de incerteza, que a resposta dada pelo Banco Central Europeu seja gradual e flexível, de forma a permitir recuos e avanços no combate à inflação. Com efeito, as mais recentes linhas mestras anunciadas por Christine Lagarde passam por uma retirada gradual dos estímulos, com a interrupção da compra de ativos no âmbito do PCEP prevista para o final deste mês, não descartando um retorno, se necessário.
De facto, gradual e flexível foram as palavras de ordem no debate “Monetary Policy: Is the unconventional the new conventional?”, que teve lugar no passado dia 7 de fevereiro, no âmbito da 7ª edição do Economia Viva. Esta conferência está disponível nas redes sociais do evento organizado pela Nova SBE Students’ Union da Nova SBE e pelo Nova Economics Club desde 2016.
O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.



