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“A maior ameaça ao sector bancário seria uma recessão global”, disse Paulo Macedo

O CEO da Caixa Geral de Depósitos participou num painel subordinado ao tema “Uma estratégia política para crescer” em que participaram também o Ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, Ana Figueiredo (CEO da Altice Portugal) e o economista António Nogueira Leite.
Cristina Bernardo
20 Junho 2022, 14h12

O presidente da Caixa Geral de Depósito, Paulo Macedo disse, na CNN Portugal Summit, que decorreu na Culturgest em Lisboa, que “a banca demonstrou nos últimos anos que fez parte da solução nas crises, ao contrário do que aconteceu na crise financeira quando perdeu o acesso ao mercado [monetário interbancário]”.

Sobre o impacto que a subida dos juros da dívida soberana pode ter na banca, Paulo Macedo reconheceu que a subida do prémio de risco face à Alemanha (spread) impacta no balanço dos bancos. Mas lembrou que o BCE tem um conjunto de instrumentos para conseguir equilibrar a subida dos juros soberanos nos países da Europa do Sul, disse o banqueiro parafraseando Mário Centeno, Governador do Banco de Portugal que tinha participado noutro painel na mesma cimeira.

“A esta hora as taxas de juro reais estão a níveis historicamente baixos e nos últimos anos tivémos taxas de juros negativas. Não é normal os bancos pagarem juros do lado do ativo e do lado do passivo, por isso um cenário de subida das taxas de juros é um cenário de normalização”, referiu o presidente executivo da CGD.

O CEO da Caixa Geral de Depósitos participou num painel subordinado ao tema “Uma estratégia política para crescer” em que participaram também o Ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, Ana Figueiredo (CEO da Altice Portugal) e o economista António Nogueira Leite.

Paulo Macedo defendeu que a banca está resiliente, pois tem hoje maiores rácios de capital, melhorou a análise do risco e normalizou a liquidez, disse o banqueiro que lembrou a subida do rating da CGD para grau de investimento, a que não é alheia a melhoria do rating da República.

“Muito do malparado que ainda se está a fazer, faz parte do legacy (herdado do passado)”, lembrou o presidente da Caixa que frisou que hoje há menos concentração de risco nos chamados “single names“, referindo-se ao crédito aos grandes grupos e aos seus empresários que no passado geraram elevados Non-Performing Loans para a banca.

Paulo Macedo voltou a dizer que pesa sob os bancos um custo sem qualquer relação com as receitas, referindo-se à contribuição extraordinária, à contribuição para o Fundo de Resolução e ao adicional de solidariedade. Para além de que “a Caixa tem um valor acumulado de juros negativos por toda a liquidez que tem”, disse.

A maior ameaça ao sector bancário seria “uma recessão global”, referiu Paulo Macedo que lembrou que “a CGD e outros bancos sistémicos não podem estar bem se a economia portuguesa não está bem”.

O CEO da Caixa Geral de Depósitos disse que as empresas e famílias fizeram uma desalavancagem nos últimos anos. “Neste momento temos um rácio de dívida do sector privado semelhante à média europeia”, disse o banqueiro. Na dívida pública é que estamos acima da média europeia, lembrou Paulo Macedo.

“As empresas melhoraram, de acordo com dados do Banco de Portugal, o seu nível de autonomia financeira”, referiu. Por outro lado, disse, “existe um nível de poupança muito significativo, nos institucionais e grandes empresas os depósitos subiram, nas pequenas e médias empresas os depósitos subiram, nas famílias os depósitos subiram”. O CEO reconheceu no entanto que há famílias que não conseguem poupar.

O aumento da poupança, segundo o presidente da CGD, serve de “almofada”, para mitigar o impacto da subida dos juros do crédito que se aproxima.

As empresas reduziram a procura de crédito bancário precisamente por causa do aumento dos depósitos que melhorou a liquidez, revelou o CEO. Mas Paulo Macedo não antevê que “a concessão de crédito vá ficar mais apertada”, e lembra que Maio foi o mês de maior crédito à habitação na banca. “As taxas de juros reais estão extremamente negativas”, frisou.

“A banca conseguiu lidar com o fim das moratórias”, recordou Paulo Macedo, avançando que há mecanismos para negociar com as empresas e famílias em dificuldades.

Por sua vez, a CEO da Altice Portugal, defendeu que os países em que a empresa de telecomunicações opera ganham na  comparação com Portugal a vários níveis, entre eles “na componente fiscal, na componente de benefícios e de apoios que os próprios Estados dão, mas sobretudo também na agilidade de fazer negócio”,  a chamada “previsibilidade regulatória”, de modo a que permita construir modelos económicos e modelos de investimento.

No mesmo painel, o economista António Nogueira Leite, lembrou que  remuneração do capital em Portugal não é extraordinária em comparação com os nossos parceiros. Ora, para atrair capital “é preciso que quem investe tenha rentabilidade em Portugal que seja igual ou superior às alternativas, porque ninguém vem para cá fazer caridade”.

O que tem impedido esse aumento de rentabilidade, na opinião de Nogueira Leite, são constrangimentos antigos da economia portuguesa que não foram suficientemente superados. “Alguma incerteza legislativa; os tribunais serem vistos pelos investidores como excessivamente aleatórios na sua jurisprudência (para além do atraso); porque há uma série de constrangimentos ao funcionamento do mercado de trabalho”, disse o economista que invocou o investimento em formação ao longo da vida.

António Nogueira Leite lembrou que a produtividade do trabalho em Portugal é historicamente mais baixa do que a generalidade dos outros países europeus. “Há 40 anos a diferença era ainda maior do que era hoje”, referiu. Por outro lado, o economista explica que na estrutura da economia portuguesa, onde 97% são pequenas e médias empresas, muitas são microempresas , o que temos é “uma quantidade muito grande de autoemprego ou de emprego rudimentar (oficinas, cafés, etc)”. Nogueira Leite revelou que “quando olhamos para as grandes e médias empresas verificamos que as diferenças de produtividade face à União Europeia estão muito mais esbatidas”. Isto significa que “o que nós temos é uma economia dual”, em que grande parte do tecido económico português “são empresas onde os gestores e os empregados têm relativamente pouca formação profissional, pouco acesso a tecnologia e pouca aposta em inovação”.

Sobre a meta de subir os salários 20% ao ano, nos próximos quatro anos, o economista disse que “em termos nominais isso é possível”, mas em termos reais “é mais difícil”. Mas Nogueira Leite alertou que se o pior cenário se materializar Portugal cresce menos tal como os outros países.

Já antes o Governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, tinha dito antes que há a possibilidade de a crise económica se transformar numa crise financeira. No entanto Centeno reconheceu que a Europa está numa melhor situação para lidar com a crise do que em 2011 e não descartou que o PRR (a chamada bazuca europeia) venha a ser alargada.

Sobre o aumento salarial de 20% em quatro anos pedido pelo Primeiro-Ministro, Mário Centeno, que foi ministro das Finanças do primeiro governo António Costa, vê essa meta como atingível.

Recorde-se que noutro painel do mesmo evento, o Primeiro-Ministro frisou que o objetivo do Governo é que o peso dos salários no PIB convirja para a média europeia, ou seja que passe dos 45% para os 48%. António Costa lembrou que os salários ao longo dos anos foram perdendo o peso no PIB. A subida do peso dos salários no PIB implica um aumento do salário médio.

“Nos últimos seis anos o salário médio subiu 22% a 23%, pelo que atingir a meta europeia exige apenas manter o crescimento dos salários que temos tido nos últimos anos”, disse o Primeiro-Ministro.

“É preciso revalorizar o trabalho”, disse António Costa na Conferência, cujo tema era “A Economia Portuguesa num Contexto de Incerteza”. Sobre a função pública Costa afirmou que vai ser mantida a atualização salarial e o descongelamento de carreiras.


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