A última linha do refrão de Help, dos Beatles, é o coro apropriado para estes tempos. Desde gigantes da aviação e monstros do petróleo (que semana!) até ao pequeno café do bairro, quase todas as empresas estão de mão estendida.
Lay-offs, linhas de financiamento, moratórias de crédito e de rendas, resgates setoriais. Toda a ajuda é hoje necessária para tentar travar as empresas e o emprego de caírem no abismo. Governos, bancos centrais e instituições internacionais reiteram que estão a fazer precisamente isso, tudo o que seja necessário, para criar uma rede para travar esse mergulho.
Se a rede de apoio será fina suficiente para segurar mais negócios e postos de trabalho do que deixa passar, provavelmente só poderemos avaliar daqui a alguns meses, quando tocarmos no fundo da recessão.
Outras considerações podemos fazer já, pois são bastante claras.
Primeiro, a questão da necessidade. Podemos questionar se os lockdowns eram absolutamente necessários ou se o modelo sueco não terá melhores resultados. Mas uma coisa é certa, tendo optado pela queda temporária da economia, as autoridades têm de estender uma rede para que ela não se desfaça quando tocar no chão.
Segundo, a própria colocação dessa rede de apoio económico, em simultâneo com uma de saúde, em tempo recorde, deve ser saudada. Após alguns soluços iniciais, a maior parte dos governos e instituições económicas e monetárias conseguiram pôr em campo soluções para atenuar o impacto da recessão para empresas e famílias. Têm todas defeitos, desde limitações ao acesso até atrasos, mas devemos ser tolerantes, pois não é fácil criar uma rede tão grande em tão pouco tempo.
Terceiro, a culpa e a cobrança. Ao contrário do que aconteceu em crises anteriores, quando era fácil apontar o dedo a banqueiros, especuladores ou petro-nações, nesta não é tão linear. Sim, os comportamentos da China, da OMS ou de alguns líderes podem ser questionados, mas a grande maioria das pessoas e organizações foi apanhada sem culpa direta no assunto.
Apesar dessa ausência generalizada de culpa, vamos todos receber a fatura da ajuda, pois por muito que nos tentem convencer, ela não é gratuita. As medidas de apoio governamentais não são uma conta de soma zero nas finanças públicas. As moratórias de crédito são uma maquilhagem temporária que vai ser substituída pelo velho amigo, o crédito malparado e, provavelmente, mais apoio para os bancos. Os resgates a empresas como a TAP são apostas que, mesmo em caso de sucesso, só pagam muito mais tarde. A aceleração do investimento público também, e com os perigos que já vimos na última crise.
A noção de que a retoma vai ser rápida e chegar a tempo de pagar a conta é cada vez mais irrealista, à medida que nos vamos apercebendo da magnitude da recessão e do ritmo lento do regresso da atividade e do combate ao vírus.
O primeiro-ministro, após algum contorcionismo sobre o assunto em duas entrevistas, voltou a dizer anteontem que não vai haver austeridade, pois seria contraproducente.
Tendo em conta o trauma recente dos portugueses, e consciente do que aconteceu ao seu antecessor, Pedro Passos Coelho, e a apetência exagerada pela austeridade, António Costa tenta a todo custo evitar ter de ser ele a impôr esse castigo novamente.
Mas, para isso, o primeiro-ministro tem de explicar como nos vai livrar da austeridade. Não basta dizer que pedirá mais ajuda à Europa, na forma de subvenções ou ‘coronabonds’. Porque essa help pode nunca chegar.



