Em toda esta pandemia, a única coisa que se espalhou mais rápido do que o vírus foi mesmo o medo. Esse companheiro que nos mantém alerta para quaisquer perigos eminentes ou latentes que nos circundem, esse inimigo paralisante, que não nos deixa responder ao apelo da vida quando em abuso de poder da sua situação.

E aqui estamos a sair do confinamento, a bem da saúde de todos e de cada um de nós, numa medida imediata, com efeitos de curto e, espera-se, médio e longo prazo. Mas com uma contrapartida nunca dantes exigida de paralisia de grande parte da economia com iguais efeitos a curto, médio e longo prazo, na sua vertente monetária e de sobrevivência de todos.

Dizia-me um amigo que o trabalho, as empresas, a economia servem, ou deviam servir, para trazer felicidade às pessoas, afinal o propósito final do ser humano neste planeta, não sendo então, ou não devendo ser, um fim em si mesmo. E tem toda a razão.

Saúde primeiro, economia depois

As primeiras coisas primeiro, diz quem se sabe organizar. A saúde então primeiro, a economia depois. Mas a pergunta para todos os gestores e responsáveis pela economia doméstica, das empresas e das organizações mantém-se: que economia teremos depois do confinamento e pós-confinamento, quando é que ela retomará e a que ritmo? Antes de qualquer coisa e de tudo o mais, tudo depende naturalmente do tempo da preparação do remédio e/ou vacina encontrados para curar esta Covid-19. 

A boa nova: o tecido produtivo está intacto

A boa nova é que, uma vez encontrado o remédio ou a vacina, se esse for o caminho, apesar de tudo por onde se está a passar, não estamos numa guerra. Não estamos perante a WW3. Sim, temos a lamentar a morte de muitas pessoas, mas não há milhões de soldados e civis mortos e as infraestruturas e o tecido produtivo não foram destruídos por bombas – fábricas, estradas, comunicações estão intactas. O que foi verdadeiramente posto em causa foi a aceleração, os motivos, os objetivos da vida que seguíamos. Pelo menos na parte do mundo que estava em “paz”.

Período de introspeção

Passado que seja este período de introspeção obrigatória e bem assim o regresso à  “atividade normal”, apenas o nosso julgamento pessoal do que devemos ou não fazer deverá retardar ou acelerar a recuperação económica atrás falada, respeitadas as diretivas de saúde pessoal e pública. Fala-se de um “revenging spending” em que o consumidor desespera para voltar às compras, mas os estudos elegem as idas ao restaurante ou café, ao cabeleireiro ou barbeiro, ao médico e marcar férias em Portugal como as suas preferências. Nada de supérfluo me parece e ao barbeiro também eu precisei de ir.

Sectores diferentes, países diferentes

Setores e países haverá que sofrerão mais do que outros, naturalmente. Nos primeiros temos, por exemplo, as indústrias do Turismo, Viagens e Banca. As duas primeiras a curto prazo, a terceira a médio prazo quando os reflexos do abrandamento económico se fizerem contabilizar nas suas imparidades. Países haverá também que sofrerão igualmente mais do que outros, ou pelo menos de maneira diferente. Portugal, aquele que para já mais nos interessa, e onde o Turismo representou 8,7% do PIB de 2019, vai ter uma quebra abrupta nesta área e no PIB como um todo, já não recuperável este ano

O modelo do quantitative easing, (não)inflação e dívida

Entretanto, esquecido Bretton Woods e o padrão ouro nele criado, vivemos num sistema em que a impressão de moeda deixou, ao que parece, de ter uma influência direta na taxa de inflação. Os chamados quantitive easing (QE) da FED e BCE com biliões de dólares e euros injetados no tecido económico, em nada mexem, pelo menos de forma significativa, nas referidas taxas de inflação, mantendo-se as mesmas em valores mínimos históricos. Já os níveis da dívida não escapam à contabilidade dos credores e apresentam valores bem medidos e, convenha-se, astronómicos. Mas isso parece não ter tido grande impacto nas decisões anteriores dos referidos QE. É um problema empurrado para frente.

Recuperação económica em função da nossa predisposição à retoma

Assim sendo, e estando já a FED e o BCE com novos pacotes de injeção de dinheiro a correr e na calha, estando as infraestruturas e o tecido produtivo intactos, estando vivos os milhões e milhões de soldados que não foram lutar guerra nenhuma, graças a Deus, então a única coisa que nos separa de uma recuperação mais ou menos rápida é a predisposição de todos nós em retomarmos ou não o que fazíamos. Dizia-me um amigo que tem a sua área de negócio na roupa e acessórios: vivendo nós na compra por impulso de um bem não essencial, como e quando vou conseguir atrair de novo o meu cliente? A razão está com ele. A decisão está connosco.

A preocupante situação financeira

Mais preocupante é a situação financeira imediata das famílias e empresas. Nem todas resistiram e resistirão a este choque económico, ao travar a fundo de grande parte da sua atividade, com dinheiro a não entrar na caixa, despesas, mesmo que menores, a manterem-se, inclusive as de sobrevivência, e o balanço para quem não tinha reservas a ser dramático, quiçá, irrecuperável em muitas situações pessoais e empresarias. A recuperação económica será, então, apenas para aqueles que sobreviverem financeiramente a este, para alguns, terrível, período de provação.

Nós, expoente máximo da evolução, que conduzimos as coisas até aqui

Há quem diga que passado algum tempo tudo voltará ao “normal”. Há quem jure a pés juntos que vai retirar as ilações desta pandemia, ficar com o bom, deitar fora o mau. No fim fica o ser humano. Nós, expoente máximo da evolução, que conduzimos as coisas até aqui e que podemos então reverter a situação. Não há que culpar. Há que perceber quem somos, tomar consciência do que sabemos e viver uma vida em que possamos agradecer não o que há de mau, seria tonto, mas tudo o que há de bom em nós e à nossa volta. E muito há e muito haverá de bom para festejar. A bem de todos.