1. A liderança de Rui Rio no PSD é tudo menos errática. O antigo presidente da Câmara Municipal do Porto está a revelar-se, semana após semana, aquilo que é a sua praxis política e aquilo que quer para o futuro do espectro político, que vai do centro-esquerda ao centro-direita.

Com a direita, já se viu, não quer absolutamente nada. Ignora a Iniciativa Liberal, repugna-lhe o Chega e empurra o CDS para a insignificância. Como naquele antigo anúncio da Prevenção Rodoviária Portuguesa, Rio considera-se o melhor condutor do mundo. O problema é que a sua vasta experiência em ralis automóveis ainda vai conduzir o PSD a um desastre eleitoral.

Nas últimas semanas, o líder do PSD deu a mão a António Costa no Orçamento Retificativo, estendeu uma passadeira vermelha ao primeiro-ministro com o fim dos debates quinzenais e, agora, prepara-se para fazer uma purga interna, qual Estaline, aos poucos deputados da bancada social-democrata que pugnaram pelos ideais de sempre do PSD e contra o fim dos debates quinzenais.

A queixa do líder ao conselho de jurisdição nacional do PSD não é uma mera questão administrativa interna, ela define um caráter e define uma prática ideológica. Rio está muito mais próximo da esquerda e do PS do que muitos julgariam possível e está, na realidade, ansioso para que António Costa esgote todas as opções à extrema-esquerda com a nova ‘geringonça’ e se vire para o seu PSD como uma solução de bloco central para os últimos três anos da legislatura.

Serão três anos muito duros, com uma contração do PIB acima de dois dígitos, o pior nível dos tempos da democracia, com o desemprego a subir em flecha, as empresas desesperadas por crédito e negócio e já sem as moratórias até aqui aplicadas e, claro, sem os subsídios a fundo perdido do lay-off. As famílias desesperadas e o PSD – que sempre foi o último reduto da responsabilidade do arco da governação, como se viu a seguir aos dois períodos de assistência dos anos 80 e o mais recente a partir de 2011 – completamente de mão dada com o Governo esgotado de António Costa.

Este caminho vai conduzir e deixar espaço para o Chega de André Ventura – e, em certa medida, permitirá alavancar a Iniciativa Liberal – vir a ganhar outro protagonismo em próximas eleições legislativas. A culpa será de Rui Rio, mas aí já será tarde para lhe pedir contas e o PSD perdeu anos, vinculou-se a António Costa e passou a ser parte do problema e não da solução.

É por isto que nas últimas semanas vários setores descontentes do PSD têm feito reuniões informais, preocupados com o futuro do partido e do país. Um pequeno sinal disto foi a vitória de Alexandre Poço contra a candidatura apoiada por Rui Rio nas eleições para a liderança da JSD, sinal de que a oposição interna a Rio não está morta e começa a dar sinais de incómodo. Outros capítulos se irão seguir.

2. “Chicão” e o CDS arriscam-se a desaparecer. O tema do apoio a Marcelo Rebelo de Sousa é mais uma acha para fogueira. Os descontentes do CDS e do PSD tendem a acotovelar-se nas fileiras do Chega e, para além do desaparecimento de um partido histórico, coloca-se um problema crítico à direita. Não terá ninguém para alianças.