As alterações climáticas são uma das questões mais prementes do nosso tempo, e o protagonismo de Greta Thunberg ou as greves climáticas estudantis são a demonstração de que a sociedade o reconhece cada vez mais. Também na política tem sido dada atenção crescente ao ambiente.

Infelizmente, a complexidade do tema faz com que boas intenções estejam longe de garantir bons resultados, acabando muitas medidas ambientais por se revelar contraproducentes. Uma fonte comum deste tipo de erro é a proibição ou substituição de produtos, que com frequência promove a utilização de substitutos com efeitos tão ou mais negativos.

Um exemplo é a substituição dos sacos de plástico, que resultou na sua proibição em vários países. Embora tenham efeitos nocivos no meio ambiente, nomeadamente devido à sua acumulação na natureza, o impacto dos seus substitutos não pode ser ignorado. Um estudo de 2018 avalia o número de utilizações necessário para o impacto ambiental de vários tipos de saco ser igual ao de sacos de plástico convencionais. Considerando todos os indicadores, um saco de plástico reciclado teria de ser reutilizado duas vezes, um de papel 43, um de algodão 7.100, e os sacos de plástico reutilizáveis 45.

Importa, no entanto, dizer que o impacto da sua acumulação na natureza (a pior característica do plástico) não foi incluído, o que torna as estimativas excessivas. Ainda assim, havendo vários estudos com conclusões similares, os dados sugerem que atacar exclusivamente os sacos de plástico convencionais é um erro, sendo preferível, por exemplo, incentivar a reutilização.

Outro exemplo é a luta contra os organismos geneticamente modificados. Embora não estejam isentos de riscos, como a resistência a herbicidas (que surge sobretudo quando apenas um herbicida é utilizado) ou perda de biodiversidade, vários estudos têm sugerido a ausência de efeitos significativos. Para além disso, a sua eficiência na utilização de recursos tem sido confirmada. Tal é especialmente importante nos países mais pobres, mas também Portugal e Espanha têm lucrado, ao contrário dos 19 países da UE que proibiram o uso de OGM.

A nível global, Brookes e Bartford (2018) concluem que, ao longo de 20 anos, os OGM diminuíram o uso de herbicidas em 8,2% e o impacto ambiental do uso de pesticidas e inseticidas em 18,4%, e em 2016 causaram uma diminuição na emissão de gases com efeito de estufa igual a 16,7 milhões de carros.

A energia nuclear é também exemplo desta tendência. Devido à intermitência na produção das energias solar e eólica e à impossibilidade de armazenar energia eficientemente, estas precisam de ser complementadas por fontes constantes: os combustíveis fósseis, a energia nuclear, ou as centrais hidroelétricas. Dado o limitado potencial de expansão das últimas, evitar a energia nuclear é promover os combustíveis fósseis. Ainda assim, centrais nucleares por todo o mundo têm vindo a fechar. A Alemanha, por exemplo, fechará as suas até 2022 para investir em energias renováveis, mas apenas espera reduzir a procura de energia “convencional” em 37% até 2050.

Sendo esta tendência global, a menos que haja um salto tecnológico que faça com que as renováveis possam satisfazer toda a procura, falharemos na redução das emissões de CO2 na produção de energia. Não sendo este salto garantido, a energia nuclear deve ser equacionada como solução, apesar dos seus problemas. O investimento inicial e tempo de construção das centrais são elevados (no entanto, este problema torna-se menos significativo no atual ambiente de juros baixos, e maior investimento em energia nuclear conduziria provavelmente a uma redução de custo e tempo).

O problema mais mediático é a possibilidade de acidentes, mas análises às mortes causadas pela produção de energia demonstram que a energia nuclear é na verdade das mais seguras (evitando ainda o uso de combustíveis fósseis e as muitas mortes que estes causam devido à poluição). Por fim, existe a questão dos resíduos, mas também aqui a evidência indica que não é preocupante.

É de notar que tanto a energia nuclear como os OGM são em princípio boas soluções em termos ambientais (ao contrário dos sacos de plástico, estes apenas um mal menor), tendo contudo riscos elevados nos piores cenários. Pode até ser válido considerá-los demasiado elevados, a justificação habitual dos seus opositores. No entanto, este tipo de análise tende a exagerar esses riscos (como os acidentes nucleares), baseando-se em preconceitos e ignorando algo fundamental: enquanto esperamos por soluções que podem nunca chegar, rejeitando as existentes, as alterações climáticas agravam-se e a sua reversão torna-se mais difícil.

Isto traz-nos a um problema central visível nos três tópicos analisados: a falta de racionalidade do ativismo, debate e política ambiental, cujos atores cedem facilmente a ideias atrativas sem considerarem todas as implicações. Urge quebrar este paradigma, pois o tempo para agir escasseia e o clima não reage a boas intenções.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club no âmbito do Economia Viva 2020.