O Banco Central Europeu (BCE) acaba de prometer lançar mais de 500 mil milhões de euros na economia europeia até 2022. Ao todo, desde o início da pandemia, já se somam mais de 1,85 biliões de euros, dez vezes a economia portuguesa em estímulos monetários, mas, se necessário, o BCE está preparado para aumentar este plano.
O principal motivo por detrás desta decisão foi a deterioração do crescimento da zona euro no curto prazo, originado pelo ressurgimento da pandemia e os confinamentos que foram introduzidos desde Novembro.
Em consonância, as compras de activos irão manter-se até a pandemia estar controlada, nomeadamente até ser atingida a imunidade de grupo, que é estimada em nove meses. Desta forma, o BCE tenta preservar as condições favoráveis ao crescimento, principalmente evitando que o mercado de dívida e financiamento aos governos, empresas e famílias se torne num problema, ao mesmo tempo que tenta fomentar o consumo e diminuir a incerteza dos empresários e investidores.
Ao garantir que irá reinvestir qualquer montante resultante da maturidade de títulos até pelo menos 2023, está a impedir que estes títulos cheguem ao mercado, pressionando as taxas de juro em baixa.
Com efeito, os juros portugueses a 10 anos atingiram valores negativos pela primeira vez, o que à primeira vista leva um investidor a crer que não existe qualquer risco numa economia que irá atingir os 300 mil milhões de euros de dívida bruta em 2021.
Esta pressão de juros baixos irá manter-se até pelo menos 2026, altura em que o BCE deverá iniciar a subida dos juros. Até lá o BCE anunciou que irá manter a compra de activos nos 20 mil milhões de euros, pelo que teremos mais 240 mil milhões de euros em compras por ano, ou 1,2 biliões de euros entre 2022 e 2026.
O BCE compra assim tempo não apenas para o combate à epidemia, mas também para a implementação do Fundo de Recuperação e do novo quadro comunitário de apoio.
A maior consequência da actual política monetária é pois a desresponsabilização dos políticos e da forma como o dinheiro é gerido e gasto, enquanto a sociedade está distraída com o combate à pandemia.
A TAP é um exemplo. O Governo chamou a si um problema que era partilhado com o sector privado e, ao fazê-lo, nacionalizou todos os prejuízos que a empresa irá ter, salvou os accionistas privados das suas obrigações como accionistas e os obrigacionistas, que assim não terão perdas numa empresa financeiramente falida. A importância de uma empresa de bandeira não pode ser defendida simplesmente por ideologia e à custa do aumento de dívida pública de todos os portugueses. Esta é uma factura superior a três mil milhões de euros, e o BCE não estará cá para financiar eternamente erros de gestão!
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.



